O SENHOR TE CHAMA


"Gostaria de dizer àqueles e àquelas que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que têm medo ou aos indiferentes:
O Senhor também te chama para seres parte do seu povo, e o faz com grande respeito e amor!" EG, n.113.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O CONTEÚDO DO QUERIGMA

Além de ser um ato de comunicação, o querigma oferece um conteúdo que é proclamado: Cristo crucificado e ressuscitado, força e sabedoria de Deus (1Cor 1,23-24), que transforma e salva a vida. Pedro, nos Atos dos Apóstolos, é po primeiro que, por ocasião da festa judaica de Pentecostes (cf.At 2,14-41), proclama a Boa Nova, quando anuncia aos judeus e a todos os habitantes de Jerusalém que Jesus é o Senhor e Cristo.

O querigma tem um caráter imperioso e expansivo que não é possível sem uma profunda e contagiante experiência de Deus. As aparições do Senhor Ressuscitado, documentadas por uma antiqquíssima tradição (1Cor 15,3-7), produziram um impacto irrefreável devido à expediência do encontro com o Mestre, que volta gloriosamente à vida depois de ter sido crucificado e morto. O querigma é inseparável desta experiência de vida, pois anuncia Cristo presente que nos faz participar de sua vitória sobre a morte. Aos Doze, Jesus confia o mandato: ide e anunciai (cf.Mc 16,15) e, por meio deles, a todos os demais seguidores, de modo que essa mensagem chegue a todos, em todos os tempos. A experiência pascal suscita o envio de pessoas que reconhecem no Senhor ressuscitado a resposta plena às suas necessidades e ao desejo infinito de vida de seus corações.

O conteúdo do querigma não é um simples discurso ou uma exortação moral; é a proclamação de um acontecimento de vida e de salvação que se dá agora, no presente dos ouvintes. Este conteúdo proclama uma pessoa, Jesus Cristo, esta proclamação provoca e abre caminhos para uma experiência de encontropessoal e apaixonado por Ele. Este conteúdo não é a simples explicitação de conceitos. É antes de tudo, uma experiência que toca a liberdade, reorienta as escolhas e ´dá sentido verdadeiro à vida.

Fonte: CNBB-Subsídios Doutrinais n.4


Como fazer o querigma?
Não é fácil ter clareza sobre o que é e como realizar o querigma. A primeira ponderação que devemos fazer é a de serem evitadas duas posturas: uma visão muito ampla e outra muito estreita.  A muito ampla consistiria em afirmar que toda pregação do Evangelho já é um primeiro anúncio, porque o Evangelho ressoa de maneira sempre nova, inclusive a vida do cristão e porque o caminho de fé consiste em um permanente recomeçar. Ora, isso seria esvaziar a especificidade do querigma. Uma visão estreita, pelo contrário, tenderia a limitar o “primeiro anúncio” à proclamação da fé, calorosa e breve, de tipo querigmático, com o objetivo de suscitar uma conversão imediata, sem duração, sem debate, sem múltiplas mediações. Nesse caso, o primeiro anúncio se reduz a um estilo de pregação direto tanto na praça pública como nas relações interpessoais. Na verdade, o querigma se entende ao “primeiro anúncio” dos elementos da fé cristã que, sob formas variáveis e em determinados contextos, torna possível os primeiros passos na fé de pessoas que a desconhecem ou se afastaram dela.
Recordemos que o querigma é um anúncio direto, profético, testemunhal, que parte da experiência do Ressuscitado. Deve surgir de uma experiência, até certo ponto, vital e positiva, que não se pode contagiar e compartilhar dela a todo momento: “Não podemos calar o que vimos e ouvimos, o que as nossas mãos tocaram da Palavra de Vida.” (1 Jo 1,1). É uma evangelização caracterizada como ponto de partida, que “toca” e mobiliza a pessoa inteira, num processo de busca por aquilo que dá sentido à sua vida.
Os destinatários do primeiro anúncio são aqueles que se afastaram da fé. Contudo, o destinatário é também interlocutor que é escutado, que se vai aprendendo a conhecer, que tem direito à palavra, com quem se estabelece uma relação de amizade. Nesse sentido, quem anuncia deve também se deixar ensinar por aqueles aos quais se dirige e apreender com eles. Não se esqueça de que antes de alguém fazer o querigma, será precedido pelo Espírito de Cristo ressuscitado.
Os lugares para realizar o querigma são todos aqueles onde se desenvolve a vida, nas periferias geográficas e existenciais, nos espaços de lazer, de trabalho, de cultura, de formação, de meios de comunicação, momentos de dor, morte e angústia, situações durante as quais as pessoas procuram um sentido maior para viver.  Mas também os espaços internos da comunidade cristã são chamados a ser destinos de primeiro anúncio na medida em que, conforme o Evangelho, devem ser acolhedores e permeáveis ao seu entorno social: as celebrações da comunidade cristã e suas atividades caritativas ou culturais.
As pessoas que se dispõem a realizar o querigma devem ter feito a experiência do encontro com o Senhor, se entender como suas discípulas e, por isso, são missionárias. Quem crê anuncia. Não são pessoas prontas ou “perfeitas” no discipulado, mas membros de uma comunidade, as quais desejam que outros participem da alegria de seguir “o Caminho, a Verdade a Vida”. Sem comunidade não existe querigma. Ninguém se torna cristão sem uma comunidade, nem pode receber um anúncio que não seja para iniciar uma vida comunitária de fé. As comunidades cristãs são portadoras do primeiro anúncio pelo seu estilo de vida, seu espírito, suas assembleias, suas celebrações, seus projetos e seus compromissos.
As formas para realizar o primeiro anúncio são múltiplas.  Pode ser de forma narrativa e testemunhal, que é quando quem anuncia narra sua própria história e desperta nos ouvintes o desejo de crer. Outra pode ser a forma querigmática, quando quem anuncia proclama a fé cristã de forma breve, inteligente e cativante, tudo ao mesmo tempo,  como ocorreu com o Eunuco ao ouvir a explicação das Escrituras dada por Filipe. Pode ter uma forma expositiva, um catecismo para adultos ou uma obra teológica que proporcione um primeiro contato com a fé e acabe suscitando o desejo de crer, como ocorreu com Edith Stein ao ler o livro de Santa Teresa. Também pode ser de forma dialógica, por meio de um debate, de um intercâmbio de argumentos entre pessoas que, juntas, se interrogam sobre o sentido da vida e se esforçam para dar razão às suas convicções. Igualmente pode ter uma forma litúrgica, como uma homilia que converteu Agostinho ao ouvir Ambrósio na Catedral de Milão. A liturgia cristã, frequentemente, é assistida por pessoas afastadas da fé e pode exercer, para elas, um papel de primeiro anúncio.
Resta-nos esclarecer os pontos essenciais do querigma, isto é, o seu conteúdo específico.  Embora não seja absolutamente rígido, o querigma é constituído dos seguintes elementos ou passos:
1) O amor de Deus: É preciso ter clareza ao afirmar: “Deus te ama: te acolhe, tu és Dele, Ele quer o teu bem. Ninguém te ama como Ele”; 

2) O pecado: Na liberdade, todo ser humano tem a tentação de se afastar desse amor fundante. O pecado é a experiência de afastar-se da fonte da vida. O anunciador precisa dizer com segurança:
 “Tu não podes te salvar por ti mesmo: vê a experiência de finitude, a necessidade de ser salvo, de indigência? Como superar o vazio do coração humano diante de tantas experiências que temos ao longo da vida?”;

3) Jesus é a única resposta: “Ele te salvou e perdoou. Nele fomos reconciliados. Ele é nosso caminho, verdade e vida, nosso último sentido. Sua pessoa e sua vida são guias e sentido. Em sua páscoa, encontramos o centro da nossa vida”; 

4) Fé e conversão: é preciso aceitar o dom da salvação e se unir a Cristo, vê-lo como aquele que nos oferece e se nos oferece como o melhor exemplo de vida, como pessoa realizada, como verdadeira salvação;

5) O dom do Espírito: a promessa é para ti: Jesus continua presente em tua vida pelo seu Espírito; Deus conosco. O Espírito é presença e força de Deus em mim e em ti;

6) A comunidade: Jesus está no irmão: “Cristo não é só para mim ou só para ti, mas para nós.” O encontro com Cristo leva ao encontro com o irmão, nos faz pertencer à família de Cristo: a Igreja.


Finalmente, quem propõe o querigma precisa estar intimamente convencido de que o Evangelho dá sentido a toda sua vida. E deve se sentir como um enviado de Deus.  Considere que a primeira evangelização dirige-se a pessoas que nos escutam livremente. Tudo o que faça pressão ou manipulação leva ao afastamento.  Tenha presente que não interessa tanto pegar no megafone e ir para os centros comerciais “vender” o Evangelho. É muito mais importante estar disponível para tanta gente que procura um sentido, uma esperança, uma espiritualidade. Seja acolhedor! Pondere os métodos variados! Há diferenças de idade, de cultura e de experiência religiosa, as quais devem ser respeitadas. Perceba o momento oportuno! Não tem muito sentido propor o Evangelho a pessoas que dele não querem saber. A essas pessoas, nessa fase, é preferível lançar interrogações capazes de pôr em causa as suas certezas.
por Dom Leomar Brustolin.

A PROCLAMAÇÃO DO QUERIGMA

A palavra tem uma força própria e um dinamismo transformante porque é Boa Nova proposta à liberdade da pessoa, convidando-a a uma resposta; o querigma interpela e realiza um diálogo. Por meio do querigma, o próprio Senhor entra em diálogo vital com a liberdade das pessoas.

Acolher o querigma significa abrir-se ao mistério de Cristo, que vem ao encontro da pessoa como Senhor e Salvador, reconhecendo somente a sua soberania. A adesão ao querigma introduz o discípulo no Reino de Deus.

A proclamação do querigma faz parte do ato de comunicar a Boa Nova de Jesus Cristo. O Diretório Geral para a Catequese, da Congregação para o Clero, identifica três formas deste ato de comunicação:

- o primeiro anúncio, que desperta a fé(querigma);
- o conhecimento sistemático e a adesão progressiva a Jesus (catequese e ensino);
- a dimensão litúrgica da proclamação da Palavra, que implica em juízo sobre as dificuldades da vida (perseguições) e nas circunstâncias quotidianas (homilia).
Assim, o querigma comporta o primeiro anúncio, que desperta a fé inicial em Jesus Cristo como o Senhor.

O QUE É O QUERIGMA?

O querigma é a proclamação de um evento histórico-salvífico e, ao mesmo tempo, um anúncio de vida. Enquanto proclamação de um evento histórico, o querigma é o anúncio de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus que se fez homem, morreu e ressuscitou para a asalvação de todos. Enquanto anúncio de vida, o querigma ultrapassa ps limites de tempo e de espaço, abraça toda a história e oferece aos homens uma esperança viva de salvação. Cristo está vivo e comunica a sua vida realizando as promessas feitas por Deus Pai a seu povo, por meio dos profetas, no Antingo Testamento (Cf. Rm 16,25-27; Mt 12,41; Lc 11,32).

O querigma é o anúncio do nome, do ensinamento, da vida, das promessas, do Reino e do mistério pascal de Jesus de Nazaré, Filho de Deus (cf.EN, n 22), que acompanha todo o processo da evangelização. As demandas e desafios deste anúncio é que reacendem na igreja, em cada etapa de sua história, a urgência da tarefa missionária. Isto é, o desafio de ser uma Igreja em estado permanente de missão.

O querigma é anúncio e proclamação para suscitar a fé nos ouvintes e manter acesa sua chama, de modo que acolhendo Jesus como Filho de Deus, Senhor e salvador participem da sua própria vida, da vitória sobre a morte, e alcancem, assim, a vida eterna (cf Jo 20,31).

O querigma é um anúncio pelo qual se atualiza a irrupção do espírito de Deus que transforma a face da terra e converte os corações. Para os judeus e para os gregos do início do cristianismo, como para muitas pessoas do nosso tempo, esta mensagem pode parecer loucura ou escândalo (cf.1Cor 1,2-10), porque baseada não na arte retporica dos homens, nem na sabedoria deste mundo, mas somente no poder do Espírito Santo (At 2,4). Com efeito, o anúncio e a experiência da fé se baseiam "no poder de Deus e não na sabedoria humana" (1Cor 2,5). Por meio do querigma, pois, um fato novo acontece na história: a salvação é oferecida.

O querigma é o anúncio da chegada do Reino de Deus na pessoa de Jesus, realizando o ideal da justiça ardentemente desejado pela humanidade. A soberania de Deus, cheia de misericórdia, se manifesta em Jesus Cristo (cf.1Cor 1,13; 2 Cor 3,9; 5,21; Ef 4,24; Fil 1,11) e se traduz no amor aos pecadores, aos pobres e àqueles que se reconhecem necessitados.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

CORPUS CHRISTI - 03.06.2010


S. Tomás de Aquino

OS EFEITOS DA EUCARISTIA
- Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 -
- Sermão sobre o Corpo do Senhor -

01. No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da instituição, as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue; seus acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração, sem violação das leis da natureza, o Cristo único e inteiro existe Ele próprio em diversos lugares, assim como uma voz é ouvida e existe em vários lugares, continuando inalterado e permanecendo inviolável quando dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo, de fato, está inteira e perfeitamente em cada e em todo fragmento de hóstia, assim como as aparências visíveis que se multiplicam em centenas de espelhos.
02. O efeito deste Sacramento deve ser considerado, portanto, primeira e principalmente em função daquilo que nele está contido, que é o Cristo.
Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo a vida da graça, segundo nos diz o Evangelho de João:
"A graça e a verdade, porém,
vieram por meio de Jesus Cristo".
Assim, da mesma forma, vindo Cristo ao mundo em forma sacramental, opera a vida da graça, segundo ainda outra passagem do mesmo Evangelho:
"Quem me come,
viverá por mim",

03. O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo. Por isto, o efeito que a Paixão de Cristo realizou no mundo, este Sacramento também realiza no homem.
04. O efeito deste Sacramento também deve ser considerado pelo modo através do qual ele é trazido aos homens, que é por modo de comida e bebida. E por isto todo efeito que a bebida e a comida material realizam quanto à vida corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e deleitar, tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual. E é por isto que se diz:
"Este é o pão da vida eterna,
pelo qual se sustenta
a substância de nossa alma".
De onde que o próprio Senhor diz, no Evangelho de São João:
"Minha carne é verdadeiramente comida,
e meu sangue é verdadeiramente bebida".

05. Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser considerado pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido. Foi por causa disto que escreveu Santo Agostinho:
"O Senhor confiou-nos
o Seu Corpo e o Seu Sangue
em coisas tais que são reduzidas à unidade
a partir de muitas outras,
porque o pão é um,
embora conste de muitos grãos,
e o vinho é feito
a partir de muitas uvas".
E por isso ele também escreveu em outro lugar:
"Ó Sacramento da piedade,
ó sinal da unidade,
ó vínculo da caridade!".

06. E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça, e uma refeição espiritual e a caridade não podem existir sem a graça, por todas estas coisas é manifesto que este Sacramento confere a graça.
07. Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes,
"o amor de Deus não é ocioso;
opera grandes coisas,
se de fato existe".
Por isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito próprio, não somente é conferido o hábito da graça e da virtude, mas também esta é conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda Epístola aos Coríntios:
"O amor de Cristo
nos impele".
Daqui é que provém que pela virtude do Sacramento da Eucaristia a alma faz uma refeição espiritual por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da bondade divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos:
"Comei, amigos, e bebei;
e inebriai-vos, caríssimos".

08. Este Sacramento também tem virtude para a remissão dos pecados veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele é tomado sob a espécie de alimento nutritivo. A nutrição proveniente do alimento é necessária ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é desperdiçado pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós também é desperdiçado a cada dia algo pelo calor da concupiscência pelos pecados veniais que diminuem o fervor da caridade. E por isto compete a este Sacramento a remissão dos pecados veniais. De onde que Santo Ambrósio diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia é tomado
"como remédio
da enfermidade de cada dia".

09. Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não somente quanto ao hábito, mas também quanto ao ato, ao qual é conduzida neste Sacramento, pelo qual os pecados veniais se dissolvem. De onde que é manifesto que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos mortais, não contrariam a caridade quanto ao hábito, mas contrariam a caridade quanto ao fervor do ato, ao qual é conduzida por este Sacramento. É por esta razão que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento da Eucaristia.
10. O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a pena devida ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele ser sacrifício, como por ser sacramento. A Eucaristia possui razão de sacrifício na medida em que é oferecido; possui razão de sacramento na medida em que é tomado.
11. Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito para o qual foi instituído. Não foi, porém, como Sacramento, instituído para satisfazer, mas para alimentar espiritualmente pela união a Cristo e aos seus membros, assim como o alimento se une ao alimentado. Mas porque esta união se realiza pela caridade, por cujo fervor alguém pode conseguir a remissão não apenas da culpa, mas também da pena, daqui ocorre que por conseqüência, por uma certa concomitância ao efeito principal, o homem alcança a remissão também para a pena. Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como o modo de sua devoção e fervor.
12. Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia possui virtude satisfatória. Entretanto, também na satisfação mais deve se considerar o afeto do oferente do que a quantidade da oblação, de onde que o Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da viúva que ofereceu apenas duas moedas, que
"ofereceu mais do que todos".
Embora, portanto, a oblação eucarística pela sua própria quantidade seja suficiente para a satisfação de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles pelos quais é oferecida, ou também para os próprios oferentes, de acordo com a quantidade de sua devoção, e não por toda a pena.
13. A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros, pelo mesmo modo em que o corpo é preservado da morte futura. O pecado é uma certa morte espiritual da alma. Ora, a natureza corporal do homem é preservada da morte pela comida e pelo remédio na medida em que a natureza humana é interiormente fortificada contra o que pode corrompê-la interiormente. É deste modo que este Sacramento preserva o homem do pecado, porque através dele, unindo-se a Cristo pela graça, é fortalecida a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida espiritual e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo 103:
"O pão confirma
o coração do homem".

14. A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também defendendo-o contra as impugnações exteriores. Pois é sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios, de modo que este Sacramento repele toda a impugnação dos demônios.
15. Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à diminuição do incitamento do pecado, diminui, porém, este incitamento por uma certa conseqüência, na medida em que aumenta a caridade, porque, segundo diz Agostinho no Livro das 83 Questões,
"O aumento da caridade
é a diminuição da cobiça".
Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o homem no bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.
16. Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros além dos que o recebem porque, conforme foi dito, este Sacramento não é apenas sacramento, mas é também sacrifício. Na medida em que neste Sacramento é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão de sacrifício. Na medida, porém, em que neste Sacramento é trazida invisivelmente a graça sob uma espécie visível, possui razão de sacramento.
17. Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem, de proveito não só por modo de sacramento, como também por modo de sacrifício, porque é oferecido por todos os que o recebem.
18. Mas também é de proveito para os que não o recebem, embora apenas por modo de sacrifício, na medida em que é oferecido pela salvação deles. É por isso que no cânon da Missa se diz:
"Lembrai-vos, Senhor,
dos vossos servos e servas,
pelos quais nós Vos oferecemos,
e eles Vos oferecem também,
este Sacrifício de louvor,
por si e por todos os seus,
pela redenção de suas almas,
pela esperança de sua salvação
e sua segurança".

19. O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia seria de proveito para outros além dos que a recebem, quando disse, na última Ceia:
"Este cálice é o meu sangue,
que por vós",
isto é, os que o recebem,
"e por muitos"
outros,
"será derramado
para o perdão dos pecados".

20. Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento a obtenção da graça e da glória e a remissão da culpa, pelo menos da venial, se este Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse a glória, a graça e a remissão das culpas sem ação nem paixão própria, por algum outro ter oferecido ou recebido este Sacramento.
Responde-se a isto dizendo que assim como a Paixão de Cristo é de proveito para todos para a remissão da culpa, e a obtenção da graça e da glória, mas não produz efeito senão naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e pela caridade, assim também este sacrifício que é a Eucaristia, memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito senão naqueles que se unem a este Sacramento pela fé e pela caridade. De onde que no Cânon da Missa não se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que nela estão, porém, o Sacrifício Eucarístico é de proveito maior ou menor de acordo com o modo de sua devoção.
21. Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia obtém a remissão dos pecados veniais, assim devemos também dizer que os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento. Pois diz São João Damasceno:
"O fogo do seu desejo que há em nós,
acendendo-se mediante
aquele fogo que há no carvão",
isto é, neste Sacramento,
"queimará nossos pecados
e iluminará nossos corações
para que ardamos e nos deifiquemos
pela participação do fogo divino".
Mas o fogo do nosso desejo ou do nosso amor é impedido pelos pecados veniais, que impedem o fervor da caridade. Portanto, os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento.
22. Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De um primeiro modo, na medida em que são passados. De um segundo modo, na medida em que estão sendo exercidos em ato.
Segundo o primeiro modo, os pecados veniais de nenhum modo impedem o efeito deste Sacramento. De fato, pode acontecer que alguém, depois de ter cometido muitos pecados veniais, se aproxime devotamente a este Sacramento e alcance plenamente o seu efeito.
Porém, de acordo com o segundo modo, os pecados veniais não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento não é apenas a obtenção da graça habitual ou da caridade habitual, mas também uma certa refeição atual de espiritual doçura. A qual, na verdade, é impedida se alguém se aproximar a este Sacramento com a mente distraída pelos pecados veniais. O aumento da graça habitual ou da caridade habitual, porém, não é tirado.
23. Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento come espiritualmente segundo o hábito, mas não segundo o ato. E por isto recebe o efeito deste Sacramento segundo o hábito, não segundo o ato.
24. Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é, ao fervor da caridade, do modo como ocorre com o Sacramento da Eucaristia. O Batismo é uma regeneração espiritual, pelo qual se adquire uma primeira perfeição, que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é uma refeição espiritual que possui uma deleitação atual.
25. Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao receber a Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais na Eucaristia. A primeira, significada e contida, é o próprio Cristo; a segunda, significada mas não contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é, a sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento, só por isto significa estar unido a Cristo e aos seus membros. Ora, isto se realiza pela fé formada pela caridade, que ninguém pode possuir juntamente com o pecado mortal. E por isto é manifesto que quem quer que receba este Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade. Incorre, por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento. Peca, por causa disto, mortalmente.
26. Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não sob a espécie sacramental, mas em sua substância própria, não pecavam. Às vezes até alcançavam o perdão dos pecados, como se lê no Evangelho de São Lucas a respeito da mulher pecadora. Isto acontecia porque o Cristo, aparecendo sob a sua espécie própria, não se exibia para ser tocado pelos homens em sinal de união espiritual com Ele, como é o caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi por isso que os pecadores que o tocavam em sua própria espécie não incorriam no crime de falsidade contra a divindade, como o fazem os pecadores que recebem este Sacramento.
27. O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo, porque ambos ofendem a Cristo sob um sinal de caridade.
Esta semelhança compete a todos os pecadores em geral, porque por todos os pecados mortais age-se contra a caridade de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais quanto os pecados são mais graves.
Mas sob um aspecto especial os pecados contra o sexto mandamento tornam o homem mais inepto para o recebimento deste Sacramento, na medida em que, a saber, por este pecado o espírito é maximamente submetido à carne, e desta maneira é impedido o fervor do amor que é requerido neste Sacramento.
28. Que ninguém, pois, se aproxime desta Mesa sem reverente devoção e fervente amor, sem verdadeiro arrependimento, ou sem lembrar-se de sua Redenção.
Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável eficácia inflama os afetos com o fogo da caridade. Que revigorante maná é aqui oferecido para o viajante! Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde para os doentes, confere o aumento da virtude, faz a graça superabundar, purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos aflitos, vincula uns aos outros todos os fiéis na união da caridade. Este Sacramento da fé também inspira a esperança e aumenta a caridade. É o pilar central da Igreja, a consolação dos que falecem, e o acabamento do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e a devoção e a caridade fraterna são aqui saboreadas. Que estupenda provisão para o caminho é esta, que conduz o viajante até à montanha das virtudes! Este é o pão verdadeiro que é comido e não consumido, que dá força sem perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça. Perdoa o pecado e enfraquece a concupiscência. Os fiéis encontram aqui a sua refeição, e as almas um alimento que ilumina a inteligência, inflama os afetos, purga os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura para as almas devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor Jesus, declara para os que crêem Tuas maravilhosas obras.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Iniciação Cristã se realiza na comunidade paroquial


Para muitos cristãos católicos, a comunidade paroquial é a unica forma de conhecer e de viver a Igreja.
A vida cristã se inicia e se alimenta na comunidade paroquial e se frutifica pela pregação da palavra, pela celebração dos Sacramentos e pela vida de Caridade que se manifesta em uma multidão de dons e de serviços.
Hoje a tarefa da Iniciação cristã se apresenta à comunidade paroquial a partir de uma tríplice vertente:
a) Iniciar os adultos batizados e não suficientemente evangelizados que são a maioria. Para isso, a ciomunidade paroquial precisa potencializar a catequese de adultos como modelo de toda a catequese, visto que neles reside a responsabilidade de transmitir a fé pela pregação da Palavra e do testemunho, dar vida à própria Igreja e se comprometer na transformação da sociedade em nome da Igreja.
Os lugares da Iniciação Cristã de adultos batizados mas não evangelizados podem ser: a pequena comunidade, os grupos, e os movimentos; a paróquia é uma rede de comunidades, de grupos e de movimentos. Alguns grupos e movimentos pregam o querigma, mas depois não desenvolvem a fé inicial através da catequese, da inserção na comunidade eclesial e no compromisso missionário. Outros grupos paroquiais catequizam sem terem anunciado o querigma. É, portanto, tarefa da paróquia coordenar as comunidades, os grupos e os movimentos para que possam cumprir as exigências da Iniciação Cristã.

b) Educar na fé as crianças batizadas mediante um mprocesso que acompanhe seu crescimento até completaar sua Iniciação Cristã; nesta, os pais de família e os padrinhos desempenham um papel central.
No mundo atual muitas famílias estão incompletas, divididas ou não têm a capacidade de educar porque não foram suficientemente evangelizadas. Neste caso, a acomunidade paroquial, através de catequistas bem formados e de processos bem delineados, pode ajudar a superar essa deficiência. Também se deve recorrer aos avós, tios, padrinhos e outros responsáveis que fazem o papel de pais.

c) Iniciar os não batizados que tendo escutado o querigma desejam abraçar a fé, é hoje um imperativo para a Igreja. Nesse sentido, a comunidade paroquial precisa oraganizar uma ação missionária para os não batizados, organizando um catecumenato inspirado no RICA.
A finalidade da renovação paroquial é formar cristãos capazes de viver, celebrar e anunciar a fé como presença do Reino.

A Iniciação Cristã na Igreja Particular

A Iniciação na vida cristã compete à comunidade eclesial. A comunidade eclesial se concretiza na diocese e suas paróquias, suas comunidades, CEB's, grupos, associações, movimentos, suas famílias e comunidades de consagradas e consagrados. A missão da Igreja Particular é fazer presente o Reino de Deus; ela realiza sua missão mediante as diversas tarefas eclesiais em uma pastoral orgância e integradora; a comunidade eclesial é o espaço privilegiado para a Iniciação Cristã; portanto a comunidade é fonte, lugar e meta da educação da fé.
Na comunidade eclesial acontece o processo catequético de Iniciação Cristã de adultos, jovens, adolescentes e crianças em idade própria. Esta preparação tem como meta a incorporação dessas pessoas como membros ativos do Corpo de Cristo, que é a igreja. Esse processo de introdução na vida cristã se faz através de quatro dimensões:
- a formação do grupo comunitário em nome do Senhor e da Igreja (dimensão comunitária);
- o ensino em clima de fé (dimensão profética);
- a celebração do Mistério (dimensão litúrgica);
- a vivência autêntica do evangelho (dimensão social).
Este processo culmina na celebração dos sacramentos de iniciação: Batismo, Confirmação e Eucaristia, que se realizam, quando possível na Vigília Pascal.
A comunidade eclesial é o espaço para integrar a fé e a vida; é o lugar onde procuramos vivenciar e aprofundar a Palavra de Deus, a celebração eucarística e a prática da solidariedade do amor oblativo. A comunidade é onde excperimentamos o verdadeiro processo de educação da fé e da experiência eclesial; portanto, seu papel básico é providenciar espaços e meios necessários para oferecer uma formação para cristãos conscientes, responsáveis comunitários, proféticos, missionários, pessoas comprometidas na construção do Reino através de um testemunho transformador da realidade. Neste testemunho transformador, é importante saber acolher a pluralidade, vivida à luz do Espírito, fator de enriquecimento da vida eclesial.
A catequese é um processo onde uma comunidade ajuda as pessoas a ler sua própria vida e a discernir sua vocação e o caminho que o Espírito lhes indica. este caminho na força do Espírito é sempre novo (cf.Ap 21,5) e essa novidade se manifesta na vida eucarística, de justiça, de fraternidade, de alegria no pãp compartilhado e numa ação a favor de uma vida digna para todos.

Acima - A Iniciação Cristã se realiza na comunidade paroquial.

ÍNTIMA RELAÇÃO ENTRE COMUNIDADE ECLESIAL E INICIAÇÃO CRISTÃ

1- Iniciação a Vida Comunitária.
A dinâmica do processo evangelizador começa com o despertar e suscitar da conversão e da adesão na fé a Cristo; continua com o momento de estruturação e fundamentação da conversão - conduzindo-a, mas sem concluir - e vai até a inserção plena do evangelizado na comunidade de discípulos, como discípulo e missionário. Por isso, é necessário levar em consideração que existem ações que precedem à Iniciação Cristã e ações que são consequência dela. A Iniciação Cristã é, dessa forma, o elo necessário entre essas ações.
Não é possível entender a Iniciação Cristã sem uma comunidade missionária que a origine, a realize e a leve à plenitude; a vida cristã do discípulo é um dom destinado a crescer. O momento pastoral comunitário de educação permanente na fé se orienta a alimentar de modo contínuo o dom da comunhão e da missão.
É claro que, para sair desta encruzilhada na qual a catequese se encontra em nosso continente [ela está focada no sacramental e no doutrinal, está pouco atenta a educar para a conversão - supondo-a necessariamente - e, por isso mesmo pouco missionária, e igualmente conduzindo pouco a vínculos comunitários e ao sentido da missão na Igreja e no mundo], esta catequese precisa assumir a dinamicidade e circularidade do processo evangelizador como princípio de renovação e mudança. Se o ponto de partida é uma ação missionária prévia, esta por sua vez, vai produzir comunidades mais vivas e dinâmicas, mas, para isso, é necessário que comunidades maduras se lancem à missão e realizem adequadamente a tarefa de iniciação. Uma comunidade que faz da iniciação uma opção prioritária precisará despertar seu caráter missionário e renovar sua vida comunitária.