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O SENHOR TE CHAMA
"Gostaria de dizer àqueles e àquelas que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que têm medo ou aos indiferentes:
O Senhor também te chama para seres parte do seu povo, e o faz com grande respeito e amor!" EG, n.113.
sábado, 6 de julho de 2013
LUMEN FIDEI - CARTA ENCÍCLICA DO SUMO PONTÍFICE PARA FRANCISCO - SOBRE A FÉ
sexta-feira, 5 de julho de 2013
A IGREJA É O CORPO DE CRISTO - 1Cor 12,12-13.
Hoje medito sobre uma outra expressão com que o Concílio Vaticano II indica a natureza da Igreja: a do corpo; o Concilio afirma que a Igreja é o Corpo de Cristo (cf. Lumen gentium, 7).
Gostaria de começar a partir de um texto dos Atos dos Apóstolos, que nós conhecemos bem: a conversão de Saulo, que depois se chamará Paulo, um dos maiores evangelizadores (cf. At 9, 4-5). Saulo é um perseguidor dos cristãos, mas enquanto percorre o caminho que leva à cidade de Damasco, é repentinamente envolvido por uma luz, cai no chão e ouve uma voz que lhe diz: «Saulo, Saulo, por que me persegues?». Ele pergunta: «Quem és, ó Senhor?», e aquela voz responde: «Sou Jesus, a quem tu persegues» (vv. 3-5). Esta experiência de são Paulo revela-nos como é profunda a união entre nós, cristãos, e o próprio Cristo. Quando Jesus subiu ao céu, não nos deixou órfãos, mas com o dom do Espírito Santo a união com Ele tornou-se ainda mais intensa. O Concílio Vaticano ii afirma que, «comunicando o seu Espírito, [Jesus] fez misteriosamente de todos os seus irmãos, chamados de entre todos os povos, como que o seu próprio Corpo» (Const. dogm. Lumen gentium 7).
A imagem do corpo ajuda-nos a compreender este profundo vínculo Igreja-Cristo, que são Paulo desenvolveu de modo particular na Primeira Carta aos Coríntios (cf. cap. 12). Antes de tudo, o corpo chama-nos a uma realidade viva. A Igreja não é uma associação assistencial, cultural ou política, mas sim um corpo vivo, que caminha e age na história. E este corpo tem uma cabeça que o guia, alimenta e sustém. Este é um ponto que eu gostaria de frisar: se separarmos a cabeça do resto do corpo, a pessoa inteira não consegue sobreviver. Assim é na Igreja: devemos permanecer ligados de modo cada vez mais intenso a Jesus. Mas não só: como num corpo é importante que passe a linfa vital porque está viva, assim também devemos permitir que Jesus aja em nós, que a sua Palavra nos oriente, que a sua presença eucarística nos alimente e nos anime, que o seu amor infunda força no nosso amor ao próximo. E isto sempre! Sempre, sempre! Estimados irmãos e irmãs, permaneçamos unidos a Jesus, confiemos nele, orientemos a nossa vida segundo o seu Evangelho, alimentemo-nos com a oração quotidiana, com a escuta da Palavra de Deus e com a participação nos Sacramentos.
E chegamos assim a um segundo aspecto da Igreja como Corpo de Cristo. São Paulo afirma que, assim como os membros do corpo humano, embora sejam diferentes e numerosos, formam um único corpo, do mesmo modo todos nós fomos baptizados mediante um só Espírito, num único corpo (cf. 1 Cor 12, 12-13). Portanto, na Igreja existe uma variedade, uma diversidade de tarefas e de funções; não há uma uniformidade plana, mas a riqueza dos dons distribuídos pelo Espírito Santo. Há comunhão e unidade: todos estão em relação uns com os outros, e todos concorrem para formar um único corpo vital, profundamente ligado a Cristo. Recordemo-lo bem: fazer parte da Igreja quer dizer estar unido a Cristo e receber dele a vida divina que nos faz viver como cristãos, significa permanecer unido ao Papa e aos Bispos, que são instrumentos de unidade e de comunhão, e quer dizer também aprender a superar personalismos e divisões, a entender-se em maior medida uns aos outros, a harmonizar as variedades e as riquezas de cada um; em síntese, a amar mais Deus e as pessoas que estão ao nosso redor, em família, na paróquia e nas associações. Para viver, corpo e membros devem estar unidos! A unidade é superior aos conflitos, sempre! Se não se resolvem bem, os conflitos separam-nos uns dos outros, afastam-nos de Deus. O conflito pode ajudar-nos a crescer, mas também pode dividir-nos. Não percorramos o caminho das divisões, das lutas entre nós!
Todos unidos, todos unidos com as nossas diferenças, mas sempre unidos: este é o caminho de Jesus. A unidade é superior aos conflitos. A unidade é uma graça que devemos pedir ao Senhor, a fim de que nos liberte das tentações da divisão, das lutas entre nós, dos egoísmos e dos mexericos. Quanto mal fazem as bisbilhotices! Nunca murmuremos dos outros, jamais! Quanto dano causam à Igreja as divisões entre os cristãos, o partidarismo, os interesses mesquinhos!
As divisões entre nós, mas também entre as comunidades: cristãos evangélicos, cristãos ortodoxos e cristãos católicos, mas por que motivo divididos? Devemos procurar promover a unidade. Digo-vos uma coisa: hoje, antes de sair de casa, passei mais ou menos quarenta minutos, ou meia hora, com um Pastor evangélico e pudemos rezar juntos, procurando a unidade. Mas devemos rezar entre nós, católicos, e também com os outros cristãos; orar para que o Senhor nos conceda a unidade, a unidade entre nós. Mas como teremos a unidade entre os cristãos, se não somos capazes de a ter entre nós, católicos? De a ter em família? Quantas famílias lutam e se dividem! Procurai a unidade, a unidade que faz a Igreja. A unidade vem de Jesus Cristo. Ele envia-nos o Espírito Santo para realizar a unidade.
Estimados irmãos e irmãs, peçamos a Deus: ajudai-nos a ser membros do Corpo da Igreja, sempre profundamente unidos a Cristo; ajudai-nos a não fazer com com que o Corpo da Igreja sofra devido aos nossos conflitos, às nossas divisões e aos nossos egoísmos; ajudai-nos a ser membros vivos, ligados uns aos outros por uma única força, a do amor, que o Espírito Santo derrama nos nossos corações (cf. Rm 5, 5).
segunda-feira, 1 de julho de 2013
ENQUANTO O MUNDO GIRA, O CORAÇÃO DE MARIA PERMANECE!
Iludem-se com frequência as pessoas, julgando ser o rumo dos acontecimentos determinado pelos governantes ou pelos potentados das finanças ou da propaganda. Ora, o verdadeiro leme da História se encontra numa esfera muito superior, inacessível aos homens: nos arcanos da Providência.
Assim, trata-se de saber no misterioso relógio de Deus que horas são. Que juízo estará fazendo, em nossos dias, o Criador da humanidade? Estará esta caminhando no sentido de cumprir os planos de Deus? Caso não, estará próximo o momento de uma intervenção decisiva dos Céus? Estas são as grandes questões às quais devem atentar os homens, hoje e sempre.
Tudo foi criado em Cristo e para Cristo. E uma vez que o Filho e a Mãe fazem parte do mesmo decreto divino, e Jesus é o centro da Criação, nesse ápice Se encontra também Maria Santíssima. Como Mãe dos homens e Rainha dos Corações. Ela detém o leme dos acontecimentos, ora distanciando-Se, deixando os homens ao sabor do livre-arbítrio deles, ora intervindo pela força da sua Onipotência Suplicante, mudando os rumos da História.
Na realidade profunda, tudo se passa em decorrência da fidelidade ou infidelidade do gênero humano em atuar. E, para que esse objetivo supremo seja atingido, é necessária a correspondência à graça das pessoas mais chamadas, das almas-chave, que receberam uma vocação mais saliente para conduzir o mundo pelas vias da salvação, e de cujo zelo depende por vezes uma história inteira.
Assim, por exemplo, o Papa Inocêncio III viu em sonhos a Basílica de São João de Latrão prestes a desabar, sustentada apenas por um humilde religiosos, que ele interpretou como sendo São Francisco de Assis. Aprouve à Providência, então que da santificação de São Francisco dependesse o progresso espiritual de toda a sociedade. E, por sua vez, os homens providenciais estão sujeitos, para o bom êxito de sua missão, às graças infundidas pelo Espírito Santo, sempre por intercessão de sua Fidelíssima Esposa.
É nesta perspectiva da eternidade proporcionada pela virtude da sabedoria, por onde tudo vemos a partir do olhar de Deus, que devemos considerar a vida. Quantos reinos aparentemente inexpugnáveis foram reduzidos a pó! Quantos potentados, pretendendo-se deuses, não sobreviveram sequer algumas gerações, passando logo para os porões da História!
Em última instância, a realização do Reino de Deus nesta Terra está subordinada aos desígnios do Altíssimo. Stat Cor Mariae dum volvitur orbis!).
Se Ele inundar de graças a humanidade, à maneira das concedidas em Pentecostes, os homens, por assim dizer, não poderão resistir. Mas para isto, o ponteiro do relógio de Deus aguarda, por misteriosos desígnios, um pedido do Doce, Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. Este sim, é o verdadeiro centro dos acontecimentos na terra, de tal modo que se pode dizer: Enquanto o mundo gira, o Coração de Maria permanece!
Fonte: Editorial Revista Arautos do Evangelho, n:129.
COMUNHÃO E CONTEMPLAÇÃO EUCARÍSTICA
A AÇÃO LITÚRGICA SÓ PODE EXPRESSAR O SEU PLENO SIGNIFICADO E VALOR SE FOR PRECEDIDA, ACOMPANHADA E SEGUIDA POR ESTA ATITUDE INTERIOR DE FÉ E DE ADORAÇÃO.
Uma interpretação unilateral do Concílio Vaticano II
Antes de tudo, uma reflexão sobre o valor do culto eucarístico, em particular da adoração do Santíssimo Sacramento.
É a experiência que, também esta tarde, nós viveremos após a Missa, antes da procissão, durante a sua realização e no seu encerramento. Uma interpretação unilateral do Concílio Vaticano II tinha penalizado esta dimensão, limitando praticamente a Eucaristia ao momento celebrativo.
Com efeito, foi muito importante reconhecer a centralidade da celebração, no qual o Senhor convoca o seu povo, o reúne ao redor da dúplice mesa da Palavra e do Pão de vida, o alimenta e o une a Si no ofertório do Sacrifício.
Esta valorização da assembleia litúrgica, em que o Senhor age e realiza o seu mistério de comunhão, permanece obviamente válida, mas ela deve ser recolocada no equilíbrio justo. Com efeito — como acontece com frequência — para ressaltar um aspecto termina-se por sacrificar outro.
Neste caso, a justa evidência conferida à celebração da Eucaristia prejudicou a adoração, como gesto de fé e de oração dirigido ao Senhor Jesus, realmente presente no Sacramento do altar. Este desequilíbrio teve repercussões inclusive na vida espiritual dos fiéis.
Com efeito, concentrando toda a relação com Jesus Eucaristia unicamente no momento da Santa Missa, corre-se o risco de esvaziar da sua presença o resto do tempo e do espaço existenciais. E assim compreende-se menos o sentido da presença constante de Jesus no meio de nós e connosco, uma presença concreta, próxima, no meio das nossas casas, como «Coração vibrante» da cidade, do povoado, do território com as suas várias expressões e atividades. O Sacramento da Caridade de Cristo deve permear toda a vida quotidiana.
Quando a assembleia se dissolve, Deus permanece conosco
Na realidade, é errado opor a celebração à adoração, como se uma com a outra estivessem em concorrência. É precisamente o contrário: o culto do Santíssimo Sacramento constitui como que o «ambiente» espiritual em cujo contexto a comunidade pode celebrar bem e na verdade a Eucaristia.
A ação litúrgica só pode expressar o seu pleno significado e valor se for precedida, acompanhada e seguida por esta atitude interior de fé e de adoração. O encontro com Jesus na Santa Missa realiza-se verdadeira e plenamente quando a comunidade é capaz de reconhecer que no Sacramento Ele habita a sua casa, nos espera, nos convida à sua mesa e depois, quando a assembleia se dissolve, permanece connosco, com a sua presença discreta e silenciosa, e acompanha-nos com a sua intercessão, continuando a receber os nossos sacrifícios espirituais e a oferecê-los ao Pai.
No momento da adoração, nós estamos todos no mesmo plano, de joelhos diante do Sacramento do Amor. O sacerdócio comum e o ministerial encontram-se unidos no culto eucarístico. É uma experiência muito bonita e significativa, que vivemos várias vezes na Basílica de São Pedro e também nas inesquecíveis vigílias com os jovens — recordo, por exemplo, as de Köln, London, Zagreb e Madrid.
É evidente para todos que estes momentos de vigília eucarística preparam a celebração da Santa Missa e predispõem os corações para o encontro, de tal modo ele seja ainda mais fecundo.
O amor autêntico vive desta reciprocidade de olhares e silêncios.
Estarmos todos em silêncio prolongado diante do Senhor presente no seu Sacramento é uma das experiências mais autênticas do nosso ser Igreja, que é acompanhado de maneira complementar pela celebração da Eucaristia, ouvindo a Palavra de Deus, cantando, aproximando-nos juntos da mesa do Pão de Vida. Comunhão e contemplação não se podem separar, pois caminham juntas. Para me comunicar verdadeiramente com outra pessoa devo conhecê-la, saber estar em silêncio ao seu lado, ouvi-la e fitá-la com amor. O amor autêntico e a amizade verdadeira vivem sempre desta reciprocidade de olhares, de silêncios intensos, eloquentes e repletos de respeito e de veneração, de tal maneira que o encontro seja vivido profundamente, de modo pessoal e não superficial. E infelizmente, se falta esta dimensão, também a própria comunhão sacramental pode tornar-se, da nossa parte, um gesto superficial. No entanto, na comunhão autêntica, preparada pelo diálogo da oração e da vida, nós podemos dirigir ao Senhor palavras de confiança, como aquelas que há pouco ressoaram no Salmo responsorial: «Senhor, sou teu servo, filho da tua serva; / quebraste as minhas cadeias. / Hei-de oferecer-te sacrifícios de louvor / invocando, Senhor, o teu nome» (Sl 115, 16-17).
Cristo não aboliu o sagrado, mas o completou
Agora gostaria de passar brevemente ao segundo aspecto: a sacralidade da Eucaristia. Também aqui ressentimos, no passado recente, de um determinado desentendimento a respeito da mensagem autêntica da Sagrada Escritura. A novidade cristã em relação ao culto foi influenciada por uma certa mentalidade secularista dos anos sessenta e setenta do século passado. É verdade, e permanece sempre válido, que o centro do culto já não se encontra nos ritos e nos sacrifícios antigos, mas no próprio Cristo, na sua pessoa, na sua vida e no seu mistério pascal. E todavia, desta novidade fundamental não se deve concluir que o sagrado já não existe, mas que ele encontrou o seu cumprimento em Jesus Cristo, Amor divino encarnado.
A Carta aos Hebreus, que ouvimos esta tarde na segunda Leitura, fala-nos precisamente da novidade do sacerdócio de Cristo, «Sumo Sacerdote dos bens futuros» (Hb 9, 11), mas não afirma que o sacerdócio terminou. Cristo «é Mediador de uma nova aliança» (Hb 9, 15), estabelecida no seu sangue, que purifica «a nossa consciência das obras mortas» (Hb 9, 14). Ele não aboliu o sagrado, mas completou-o, inaugurando um novo culto, que é sem dúvida plenamente espiritual, mas que no entanto, enquanto estivermos a caminho no tempo, ainda se serve de sinais e de ritos, que só virão a faltar no final, na Jerusalém celeste, onde já não haverá templo algum (cf. Ap 21, 22). Graças a Cristo, a sacralidade é mais verdadeira, mais intensa e, como acontece no caso dos mandamentos, também mais exigente! Não é suficiente a observância ritual, mas exigem-se a purificação do coração e o compromisso da vida.
O novo Rito é sinal supremo e verdadeiro do sagrado
Apraz-me ressaltar também que o sagrado tem uma função educativa, e inevitavelmente o seu desaparecimento empobrece a cultura, em particular a formação das novas gerações. Se, por exemplo, em nome de uma fé secularizada que já não precisa de sinais sagrados, fosse abolida esta procissão urbana do Corpus Christi, o perfil espiritual de Roma ficaria «nivelado» e por isso a nossa consciência pessoal e comunitária seria debilitada. Ou então, pensemos numa mãe e num pai que, em nome de uma fé dessacralizada, privassem os próprios filhos de toda a ritualidade religiosa: na realidade, acabariam por deixar este campo livre aos numerosos sucedâneos presentes na sociedade consumista, a outros ritos e sinais, que mais facilmente poderiam tornar-se ídolos. Deus, nosso Pai, não agiu assim com a humanidade: mandou o seu Filho ao mundo não para abolir, mas para levar a cumprimento também o sagrado. No ápice desta missão, na última Ceia, Jesus instituiu o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, o Memorial do seu Sacrifício pascal. Agindo deste modo, Ele pôs-se no lugar dos sacrifícios antigos, mas fê-lo no âmbito de um rito, que ordenou aos Apóstolos que perpetuassem como sinal supremo do verdadeiro Sagrado, que é Ele mesmo. Caros irmãos e irmãs, é com esta fé que nós celebramos hoje e cada dia o Mistério eucarístico e que O adoramos como Centro da nossa vida e âmago do mundo! Amém.
Homilia na Missa da Solenidade de Corpus Christi, 07.06.2012. Papa Emérito Bento XVI.
ARTIGO - QUAL É A CHAVE PARA INTERPRETAR A SAGRADA ESCRITURA?
A problemática da interpretação da Sagrada Escritura, já presente nos primeiros séculos da Igreja, renova-se hoje no âmbito de certos estudos exegéticos. Afinal, qual é a chave para uma correta hermenêutica da Revelação?
Quando uma pequena cidade da Judeia, nasceu um Menino e foi reclinado numa pobre manjedoura, chegou a um auge a manifestação de Deus aos homens. A Palavra Se fez carne e habitou entre nós. Firme era "o misterioso desígnio de sua vontade, que em sua benevolência formara desde sempre", o desígnio de "reunir em Cristo todas as coisas, as dos Céus e as da Terra" (cf. Ef 1,9-10).
Como foram os primórdios da realização dos desejos do Redentor?
Os Padres Apologistas: primeiros teólogos da Igreja.
Os autores cristãos subsequentes à geração que colaborou diretamente com os Apóstolos viveram num período de intensas perseguições, e pari passu coube-lhes enfrentar árduas disputas doutrinárias. Ditas oposições, forjadas nos ambientes ainda intoxicados pelo paganismo da época, tentavam colocar obstáculos ao anúncio das verdades reveladas na Sagrada Escritura e de modo particular no Evangelho.
Naquela quadra histórica, célebres intelectuais como São Justino, Santo Irineu, Santo Hipólito de Roma, Tertuliano, Orígenes, São Panteno, São Cipriano, São Clemente de Alexandria, São Luciano e tantos outros, puseram sua pena, sua ciência e sobretudo o ardor de sua Fé a serviço de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esses doutos evangelizadores se opuseram com talento à empáfia intelectual dos gnósticos, às impugnações capciosas e a dialética petulante dos heresiarcas e dos filósofos pagãos.
Demonstrando com rigor de lógica e perfeita coerência do Antigo com o Novo Testamento, afirmaram que as profecias messiânicas têm sua plena realização na divina Pessoa de Jesus Cristo, o Redentor, e que a filosofia, por ser uma ciência meramente humana, nunca havia alcançado a verdade a não ser parcialmente e entrelaçada com erros. O Cristianismo, pelo contrário, apresentava a verdade inteira, pelo de ter vindo à Terra Quem era "o Caminho, a Verdade e a Vida".
Por seu zelo pela doutrina teológica da Igreja, esses cultos propagadores do Evangelho foram reconhecidos com o título de "Padres Apologistas", os quais com sua lúcida "demonstração da Fé [...] colocaram os fundamentos da ciência de Deus. São, portanto, os primeiros teólogos da Igreja.
Imbricamento entre Fé e Razão
Qual o motivo de esboçar um tão longínquo quadro histórico? Se reconhecemos o feliz acerto do adágio latino "História magistra vitae et testis temporum - a História é a mestra da vida e testemunha dos tempos", com toda propriedade podemos afirmar junto com o Beato João Paulo II, que a História da Igreja é "magistra vitae christiance - mestra da vida cristã".
Assim sendo, não deve nos surpreender o fato de que as vicissitudes históricas e os debates enfrentados em outros tempos pelos filhos da Igreja projetem luzes e constituam valiosos antecedentes para analisarmos os atuais desafios eclesiais. Em concreto, a complexa trama de sofismas, tecida com o intuito de desacreditar a divindade de Jesus Cristo, exigiu dos Padres Apologistas uma argumentação rigorosamente acadêmica segundo os cânones da retórica grega vigentes. Deste modo, legaram eles à Igreja um valioso patrimônio para a estruturação do seu acervo doutrinário e o incremento da Fé cristã.
Mas ainda, através de seu discurso deixaram assente perante a História do Cristianismo a necessidade de um imbricamento entre o conhecimento conferido pela Fé (cognitio fidei) e o conferido pela Razão (scientia rationis). Esta harmonia será condição sine qua non para uma perfeita interpretação das Sagradas Escrituras à luz da Teologia.
Indispensável harmonia entre exegese e Teologia
Hoje a problemática da interpretação da Sagrada Escritura, não obstante os séculos transcorridos, renova-se em suas linhas mestras no âmbito tocante a certos estudos acadêmicos que aplicam seus métodos exegéticos à Bíblia. Com efeito, está isto no cerne de diversos ensinamentos proferidos pelo Papa Bento XVI nos últimos meses, e, mais especialmente, em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja.
Para situar-se nesta importante temática, é necessário ter presente, como explica o Papa, que no Sínodo dos Bispos "os Padres reconheceram, com alegria, o crescimento do estudo da palavra de Deus na Igreja ao longo dos últimos decênios".
A transcendência deste crescimento é destacada pela Verbum Domini, utilizando palavras da Encíclica Providentissimus Deus, de Leão XIII: "O estudo da Sagrada Escritura deve ser como que a alma da sagrada Teologia".
Este enunciado põe em relevo a indispensável harmonia que deve existir entre exegese e Teologia, chave fundamental para uma correta interpretação da sagrada Escritura. Mais ainda, "da relação fecunda entre exegese e Teologia depende, em grande parte, a eficácia pastoral da ação da Igreja e da vida espiritual dos fiéis".
A este propósito, Bento XVI manifesta sua apreensão pelo fato de, em certos âmbitos acadêmicos, mesmo nos mais elevados, observa-se "o grave risco de um dualismo que se gera ao abordar as Sagradas Escrituras". Dualismo que infelizmente "leva a exegese e a Teologia a comportarem-se como estranhas".
Na ótica do papa, o divórcio entre Fé e Razão, exegese e Teologia, é incoerente. Em outros termos, quando "a exegese não é Teologia, a Escritura não pode ser a alma da Teologia e, vice-versa, onde a Teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta Teologia já não tem fundamento".
Regras para uma exegese adequada da Sagrada Escritura
Por um lado, como a Sagrada Escritura narra acontecimentos históricos reais, seu estudo deve ser feito com os métodos de uma séria investigação histórica. Por outro, o texto bíblico contém palavras divinas em linguagem humana e, portanto, é preciso analisá-lo a partir da mente de Deus.
Para uma acertada hermenêutica, é necessário seguir uma regra fundamental: interpretar as palavras no mesmo espírito com o qual foram escritas. E para isso ser possível, o Pontífice indicou ao Sínodo três critérios fundamentais:
1) Deve-se interpretar o texto tendo presente a unidade de toda a Escritura Sagrada (exegese canônica), em cujo centro está Nosso Senhor Jesus Cristo.
2) Também é necessário ter presente a Tradição viva da Igreja. "Consoante um adágio dos Padres, 'Sacra Scriptura princupalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta - A Sagrada Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais'. Com efeito, a Igreja leva em sua Tradição a memória viva da palavra de Deus, e é o Espírito Santo Quem lhe dá a interpretação espiritual da Escritura.
3) Por fim, é preciso observar a analogia da Fé. Ou seja a coesão das verdades da Fé entre si e sua relação com o todo da revelação, todas as partes da Sagrada Escritura se esclarecem e se coordenam mutuamente.
Somente assim, acrescenta o Papa, "é possível falar de uma exegese teológica, de uma exegese adequada" do Livro Sagrado.
As consequências de uma hermenêutica secularizada
As expressões "exegese teológica" e "exegese adequada" põem em evidência o ponto fundamental da problemática por ele enunciada. Embora os Padres sinodais tenham reconhecido que o aperfeiçoamento da metodologia histórico-crítica aportou inegáveis benefícios à exegese, não se pode afirmar o mesmo quanto aos aspectos teológicos.
A tendência a analisar as Sagradas Escrituras desvinculando os aspectos históricos-críticos da dimensão teológica levou o Papa Bento XVI a apresentar um elenco das consequências mais preocupantes que isto traz, mostrando como a ausência de uma interpretação à luz da Fé acaba por dar origem a uma "hermenêutica secularizada, positivista, cuja chave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana [...] Consequentemente propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos".
Assim, por exemplo, parafraseando a interrogação dirigida por Jesus aos seus discípulos (Mt 16,13), pode-se perguntar: "Na opinião de certos peritos da ciência bíblica, quem é o Filho do Homem?. E em resposta se apresentará ante nossos olhos uma miscelânea de teses pretendendo definir, com fundamento naturalista, quem foi Jesus.
Por brevidade, enunciamos aqui apenas alguns erros surgidos nos últimos trinta anos a este propósito. As conclusões de certos trabalhos acadêmicos asseguram que Jesus foi um profeta escatológico preocupado pela restauração das doze tribos; um homem carismático que realizou gestos taumatúrgicos; um mestre subversivo ou, se se quiser, um guru revolucionário; um camponês hebreu de tendências filosóficas cínicas; um filósofo cínico; um revolucionário social pacifista; um judeu que outorgou preeminência à lei mosaica radicalizando suas exigências, mas de modo especial o amor ao próximo; um fariseu partidário de Hillel; um rabino idealista; ou um mago que utilizou conjuros secretos para curar enfermos e libertar endemoniados.
Não faltam os autores que negam a instituição da Sagrada Eucaristia e da própria Ressurreição! Segundo certa corrente de acadêmicos, os seguidores mais íntimos de Jesus escreveram os Evangelhos com o objetivo de idealizar a figura do Mestre, e os milagres e acontecimentos surpreendentes narrados por eles não passariam de fatos míticos sem base concreta na realidade. Pois, em síntese, o ponto focal das teses baseadas numa hermenêutica filosófica-secularizada consiste em afirmar que o Filho da Santíssima Virgem Maria não teve noção de sua divindade e, portanto, morreu sem acreditar que era o Cristo e o fundador da Igreja.
Qual Jesus devemos escolher? O guru revolucionário? O camponês cínico? O mago dos conjuros? O rabino hillelista? Ou devemos aguardar outra teoria que ainda nos ensine quem foi Ele?
Conclusões exegéticas que questionam verdades da Fé.
Neste contexto, onde duas concepções hermenêuticas se entrechocam, o que no fundo está em jogo na compreensão da sagrada Escritura, segundo as palavras do papa, é a correta relação entre a Fé e a Razão.
As conclusões exegéticas obtidas pela hermenêutica secularizada obedecem a uma visão naturalista do universo, a uma filosofia e a preconceitos racionalistas; e são apresentadas como fruto de um moderno espírito científico, sendo a esta título "assepticamente" liberadas do "jugo" dos dogmas e, sobretudo, de um "rígido" Magistério Eclesiástico. Em consequência, seus expoentes não aceitam a possibilidade de um Deus que intervém na História e ao mesmo tempo Se revela à humanidade. E questionam, com isso, verdades da Fé pregadas pela Tradição da Igreja.
Para eles, os acontecimentos descritos na Bíblia, em especial no Evangelho, não podem ter sucedido como são narrados. Procuram negar as mais categóricas afirmações, como esta de São Paulo: "Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos. E a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: 'Abá, Pai'" (Gl 4,4-6).
Considerando esta realidade, se comprova que o fato destes métodos exegéticos conterem um definitivo substractum filosófico, leva seus seguidores a desconhecer que "as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo", que os Livros Sagrados do Antigo e do Novo Testamento "têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja".
Em síntese, os princípios desta hermenêutica secularizada são incompatíveis com a proclamação da Santa Igreja segundo a qual os livros da Bíblia, declarados por ela como canônicos, com certeza, de modo fiel e sem erro, contêm as verdades dispostas por Deus para a nossa salvação.
Inspiração e verdade da Sagrada Escritura.
Na verdade, se queremos pensar numa adequada interpretação da Sagrada Escritura, devemos nos unir à Santa Igreja: "É precisamente a fé da igreja que reconhece na Bíblia a palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo Agostinho, 'não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica'".
Este é o quid de toda a questão, em vista do qual o Santo Padre, acolhendo o pedido dos Padres do XII Sínodo, encomendou à Pontifícia Comissão Bíblica a elaboração de um estudo sobre Inspiração e Verdade da Bíblia.
O debate doutrinal sobre a Inspiração trará à luz tópicos tão essenciais como a "natureza íntima" e o "significado decisivo e distintivo" da Sagrada Escritura, isto é, sua qualidade de Palavra de Deus. Sem este pressuposto a leitura do escrito Sagrado se transforma em "curiosidade histórica", "pura historiografia", "história da literatura" ou, se quiser, em "arqueologia".
Simultaneamente, a reflexão sobre o tema da verdade da sagrada Escritura trará um acréscimo para a vida de toda a Igreja, pois se aprofundará a ideia de que o texto sagrado é constituído por palavras inspiradas, onde o próprio Deus faz ouvir a sua voz por meio dos hagiógrafos, profetas, apóstolos e evangelistas.
A hermenêutica da Fé se apoia no valor ontológico da razão.
Analisada a transcendência da problemática, comprova-se que a hermenêutica com a qual a Igreja em todos os tempos abordou a Sagrada Escritura, possui a excelência de uma tradição viva e dinâmica de quase dois mil anos de existência. O pressuposto fundamental é uma decisão enlevada e amorosa à Palavra de Deus, em virtude do Dom inestimável da Fé. Portanto, uma exegese que deseje abordar de modo adequado a Sagrada Escritura " deve reconhecer que a Fé da Igreja é quela forma de 'simpatia' sem a qual o texto não se abre. Deve reconhecer essa Fé como uma hermenêutica, como lugar da compreensão, que não violenta dogmaticamente a Bíblia, mas lhe oferece a única possibilidade de ser ela mesma".
Mas, junto com esta simpatia, qualidade eminente da hermenêutica da Fé, deve-se acrescentar que esta, em sua dimensão mais genuína, não se confunde com uma concepção crédula, cega e sentimental, carente de juízo crítico. Pelo contrário, a hermenêutica da Fé tem como ponto de partida um rationabile obsequium. Quer dizer, o ser humano - em sua qualidade de criatura e fazendo uso das faculdades da razão e da vontade - reconhece com humildade sua contingência e dependência em relação a Deus, adora-O e outorga seu assentimento amoroso às verdades sobrenaturais por Ele reveladas.
Em outras palavras, um católico fiel adere ao Magistério da Igreja, não pela emoção ou pelos sentimentos que as verdades da Religião possam provocar: ele crê apoiado no valor ontológico da razão, faculdade pela qual examina e pondera essas revelações e, com o auxílio da graça, as aceita como dignas de ser cridas. Pari passu, reconhece que "por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana.
As duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à verdade.
Por estes motivos, é oportuno recordar o ensinamento expresso pelo Bem-aventurado João Paulo II, nas palavras iniciais da célebre encíclica Fides et ratio: "A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade". Com elas o Pontífice sintetizou os fundamentos da Doutrina Católica a respeito do autêntico conúbio que deve reger as relações da Fé com o entendimento humano.
De fato, a Fé sem a Razão degenera em fideísmo, que põe as verdades da Religião num plano distinto do racional, sobre a base da mera sensibilidade ou das emoções desprovidas de reflexão. Dita doutrina não faz senão esvaziar a Fé de objetividade. Por sua vez, a capacidade de raciocinar dissociada da Fé, desemboca no racionalismo, o qual atribui "à razão natural aquilo que se pode conhecer apenas pela luz da fé". Por este motivo, amas as correntes foram motivo de censura por parte da Igreja.
Comprova-se assim que a hermenêutica da Fé, com a qual a Igreja lê a Sagrada Escritura, tem seus fundamentos num sólido patrimônio histórico-espiritual referendado ao longo de quase dois mil anos por virtuosos testemunhos de vida, lúcidos ensinamentos e até pelo derramamento do próprio sangue, no martírio: "Realmente, a interpretação mais profunda da escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua". Ou seja, dos santos. Trata-se de uma plêiade de homens e mulheres, canonizados ou não, que junto a ilustres Padres da igreja, sábios Doutores, intrépidos Confessores, valorosos Mártires e inocentes Virgens proclamaram com sua vida e sua palavra este princípio essencial: uma correta hermenêutica da Sagrada Escritura deve estar sempre em concordância com a Fé professada pela Igreja Católica de todos os tempos.
Como afirma o Papa Bento XVI, "a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus."
Declaração ufana da unidade de Jesus.
Assim pensaram, assim creram e assim argumentaram os primeiros teólogos da Igreja, os Padres Apologistas. Neste sentido, deve-se recordar que o nome de Jesus Cristo, com o qual a Igreja nascente começou a denominar o Homem-Deus, corresponde à declaração ufana da unidade de Jesus, o Homem Verdadeiro, e Cristo, o Deus-Verdadeiro.
Desde aqueles dias até hoje, esta verdade foi proclamada por inúmeros filhos da igreja os quais, a exemplo do Divino Mestre, não duvidaram em enfrentar perseguições e isolamentos, chegando até o martírio. Seu testemunho admirável atravessa os séculos e se apresenta ao mundo atual como uma verdadeira hermenêutica vivificante da Fé. A todos eles, sejam dirigidas nossa súplicas para que um dia também nós, depois de termos combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a Fé (cf. 2Tm 4,7), mereçamos pela graça de Deus ser admitidos na Pátria Celeste.
Fonte: Revista: Arautos do Evangelho, (Pe.Leonardo Barraza,EP); n.128.
Quando uma pequena cidade da Judeia, nasceu um Menino e foi reclinado numa pobre manjedoura, chegou a um auge a manifestação de Deus aos homens. A Palavra Se fez carne e habitou entre nós. Firme era "o misterioso desígnio de sua vontade, que em sua benevolência formara desde sempre", o desígnio de "reunir em Cristo todas as coisas, as dos Céus e as da Terra" (cf. Ef 1,9-10).
Como foram os primórdios da realização dos desejos do Redentor?
Os Padres Apologistas: primeiros teólogos da Igreja.
Os autores cristãos subsequentes à geração que colaborou diretamente com os Apóstolos viveram num período de intensas perseguições, e pari passu coube-lhes enfrentar árduas disputas doutrinárias. Ditas oposições, forjadas nos ambientes ainda intoxicados pelo paganismo da época, tentavam colocar obstáculos ao anúncio das verdades reveladas na Sagrada Escritura e de modo particular no Evangelho.
Naquela quadra histórica, célebres intelectuais como São Justino, Santo Irineu, Santo Hipólito de Roma, Tertuliano, Orígenes, São Panteno, São Cipriano, São Clemente de Alexandria, São Luciano e tantos outros, puseram sua pena, sua ciência e sobretudo o ardor de sua Fé a serviço de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esses doutos evangelizadores se opuseram com talento à empáfia intelectual dos gnósticos, às impugnações capciosas e a dialética petulante dos heresiarcas e dos filósofos pagãos.
Demonstrando com rigor de lógica e perfeita coerência do Antigo com o Novo Testamento, afirmaram que as profecias messiânicas têm sua plena realização na divina Pessoa de Jesus Cristo, o Redentor, e que a filosofia, por ser uma ciência meramente humana, nunca havia alcançado a verdade a não ser parcialmente e entrelaçada com erros. O Cristianismo, pelo contrário, apresentava a verdade inteira, pelo de ter vindo à Terra Quem era "o Caminho, a Verdade e a Vida".
Por seu zelo pela doutrina teológica da Igreja, esses cultos propagadores do Evangelho foram reconhecidos com o título de "Padres Apologistas", os quais com sua lúcida "demonstração da Fé [...] colocaram os fundamentos da ciência de Deus. São, portanto, os primeiros teólogos da Igreja.
Imbricamento entre Fé e Razão
Qual o motivo de esboçar um tão longínquo quadro histórico? Se reconhecemos o feliz acerto do adágio latino "História magistra vitae et testis temporum - a História é a mestra da vida e testemunha dos tempos", com toda propriedade podemos afirmar junto com o Beato João Paulo II, que a História da Igreja é "magistra vitae christiance - mestra da vida cristã".
Assim sendo, não deve nos surpreender o fato de que as vicissitudes históricas e os debates enfrentados em outros tempos pelos filhos da Igreja projetem luzes e constituam valiosos antecedentes para analisarmos os atuais desafios eclesiais. Em concreto, a complexa trama de sofismas, tecida com o intuito de desacreditar a divindade de Jesus Cristo, exigiu dos Padres Apologistas uma argumentação rigorosamente acadêmica segundo os cânones da retórica grega vigentes. Deste modo, legaram eles à Igreja um valioso patrimônio para a estruturação do seu acervo doutrinário e o incremento da Fé cristã.
Mas ainda, através de seu discurso deixaram assente perante a História do Cristianismo a necessidade de um imbricamento entre o conhecimento conferido pela Fé (cognitio fidei) e o conferido pela Razão (scientia rationis). Esta harmonia será condição sine qua non para uma perfeita interpretação das Sagradas Escrituras à luz da Teologia.
Indispensável harmonia entre exegese e Teologia
Hoje a problemática da interpretação da Sagrada Escritura, não obstante os séculos transcorridos, renova-se em suas linhas mestras no âmbito tocante a certos estudos acadêmicos que aplicam seus métodos exegéticos à Bíblia. Com efeito, está isto no cerne de diversos ensinamentos proferidos pelo Papa Bento XVI nos últimos meses, e, mais especialmente, em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja.
Para situar-se nesta importante temática, é necessário ter presente, como explica o Papa, que no Sínodo dos Bispos "os Padres reconheceram, com alegria, o crescimento do estudo da palavra de Deus na Igreja ao longo dos últimos decênios".
A transcendência deste crescimento é destacada pela Verbum Domini, utilizando palavras da Encíclica Providentissimus Deus, de Leão XIII: "O estudo da Sagrada Escritura deve ser como que a alma da sagrada Teologia".
Este enunciado põe em relevo a indispensável harmonia que deve existir entre exegese e Teologia, chave fundamental para uma correta interpretação da sagrada Escritura. Mais ainda, "da relação fecunda entre exegese e Teologia depende, em grande parte, a eficácia pastoral da ação da Igreja e da vida espiritual dos fiéis".
A este propósito, Bento XVI manifesta sua apreensão pelo fato de, em certos âmbitos acadêmicos, mesmo nos mais elevados, observa-se "o grave risco de um dualismo que se gera ao abordar as Sagradas Escrituras". Dualismo que infelizmente "leva a exegese e a Teologia a comportarem-se como estranhas".
Na ótica do papa, o divórcio entre Fé e Razão, exegese e Teologia, é incoerente. Em outros termos, quando "a exegese não é Teologia, a Escritura não pode ser a alma da Teologia e, vice-versa, onde a Teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta Teologia já não tem fundamento".
Regras para uma exegese adequada da Sagrada Escritura
Por um lado, como a Sagrada Escritura narra acontecimentos históricos reais, seu estudo deve ser feito com os métodos de uma séria investigação histórica. Por outro, o texto bíblico contém palavras divinas em linguagem humana e, portanto, é preciso analisá-lo a partir da mente de Deus.
Para uma acertada hermenêutica, é necessário seguir uma regra fundamental: interpretar as palavras no mesmo espírito com o qual foram escritas. E para isso ser possível, o Pontífice indicou ao Sínodo três critérios fundamentais:
1) Deve-se interpretar o texto tendo presente a unidade de toda a Escritura Sagrada (exegese canônica), em cujo centro está Nosso Senhor Jesus Cristo.
2) Também é necessário ter presente a Tradição viva da Igreja. "Consoante um adágio dos Padres, 'Sacra Scriptura princupalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta - A Sagrada Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais'. Com efeito, a Igreja leva em sua Tradição a memória viva da palavra de Deus, e é o Espírito Santo Quem lhe dá a interpretação espiritual da Escritura.
3) Por fim, é preciso observar a analogia da Fé. Ou seja a coesão das verdades da Fé entre si e sua relação com o todo da revelação, todas as partes da Sagrada Escritura se esclarecem e se coordenam mutuamente.
Somente assim, acrescenta o Papa, "é possível falar de uma exegese teológica, de uma exegese adequada" do Livro Sagrado.
As consequências de uma hermenêutica secularizada
As expressões "exegese teológica" e "exegese adequada" põem em evidência o ponto fundamental da problemática por ele enunciada. Embora os Padres sinodais tenham reconhecido que o aperfeiçoamento da metodologia histórico-crítica aportou inegáveis benefícios à exegese, não se pode afirmar o mesmo quanto aos aspectos teológicos.
A tendência a analisar as Sagradas Escrituras desvinculando os aspectos históricos-críticos da dimensão teológica levou o Papa Bento XVI a apresentar um elenco das consequências mais preocupantes que isto traz, mostrando como a ausência de uma interpretação à luz da Fé acaba por dar origem a uma "hermenêutica secularizada, positivista, cuja chave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana [...] Consequentemente propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos".
Assim, por exemplo, parafraseando a interrogação dirigida por Jesus aos seus discípulos (Mt 16,13), pode-se perguntar: "Na opinião de certos peritos da ciência bíblica, quem é o Filho do Homem?. E em resposta se apresentará ante nossos olhos uma miscelânea de teses pretendendo definir, com fundamento naturalista, quem foi Jesus.
Por brevidade, enunciamos aqui apenas alguns erros surgidos nos últimos trinta anos a este propósito. As conclusões de certos trabalhos acadêmicos asseguram que Jesus foi um profeta escatológico preocupado pela restauração das doze tribos; um homem carismático que realizou gestos taumatúrgicos; um mestre subversivo ou, se se quiser, um guru revolucionário; um camponês hebreu de tendências filosóficas cínicas; um filósofo cínico; um revolucionário social pacifista; um judeu que outorgou preeminência à lei mosaica radicalizando suas exigências, mas de modo especial o amor ao próximo; um fariseu partidário de Hillel; um rabino idealista; ou um mago que utilizou conjuros secretos para curar enfermos e libertar endemoniados.
Não faltam os autores que negam a instituição da Sagrada Eucaristia e da própria Ressurreição! Segundo certa corrente de acadêmicos, os seguidores mais íntimos de Jesus escreveram os Evangelhos com o objetivo de idealizar a figura do Mestre, e os milagres e acontecimentos surpreendentes narrados por eles não passariam de fatos míticos sem base concreta na realidade. Pois, em síntese, o ponto focal das teses baseadas numa hermenêutica filosófica-secularizada consiste em afirmar que o Filho da Santíssima Virgem Maria não teve noção de sua divindade e, portanto, morreu sem acreditar que era o Cristo e o fundador da Igreja.
Qual Jesus devemos escolher? O guru revolucionário? O camponês cínico? O mago dos conjuros? O rabino hillelista? Ou devemos aguardar outra teoria que ainda nos ensine quem foi Ele?
Conclusões exegéticas que questionam verdades da Fé.
Neste contexto, onde duas concepções hermenêuticas se entrechocam, o que no fundo está em jogo na compreensão da sagrada Escritura, segundo as palavras do papa, é a correta relação entre a Fé e a Razão.
As conclusões exegéticas obtidas pela hermenêutica secularizada obedecem a uma visão naturalista do universo, a uma filosofia e a preconceitos racionalistas; e são apresentadas como fruto de um moderno espírito científico, sendo a esta título "assepticamente" liberadas do "jugo" dos dogmas e, sobretudo, de um "rígido" Magistério Eclesiástico. Em consequência, seus expoentes não aceitam a possibilidade de um Deus que intervém na História e ao mesmo tempo Se revela à humanidade. E questionam, com isso, verdades da Fé pregadas pela Tradição da Igreja.
Para eles, os acontecimentos descritos na Bíblia, em especial no Evangelho, não podem ter sucedido como são narrados. Procuram negar as mais categóricas afirmações, como esta de São Paulo: "Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos. E a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: 'Abá, Pai'" (Gl 4,4-6).
Considerando esta realidade, se comprova que o fato destes métodos exegéticos conterem um definitivo substractum filosófico, leva seus seguidores a desconhecer que "as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo", que os Livros Sagrados do Antigo e do Novo Testamento "têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja".
Em síntese, os princípios desta hermenêutica secularizada são incompatíveis com a proclamação da Santa Igreja segundo a qual os livros da Bíblia, declarados por ela como canônicos, com certeza, de modo fiel e sem erro, contêm as verdades dispostas por Deus para a nossa salvação.
Inspiração e verdade da Sagrada Escritura.
Na verdade, se queremos pensar numa adequada interpretação da Sagrada Escritura, devemos nos unir à Santa Igreja: "É precisamente a fé da igreja que reconhece na Bíblia a palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo Agostinho, 'não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica'".
Este é o quid de toda a questão, em vista do qual o Santo Padre, acolhendo o pedido dos Padres do XII Sínodo, encomendou à Pontifícia Comissão Bíblica a elaboração de um estudo sobre Inspiração e Verdade da Bíblia.
O debate doutrinal sobre a Inspiração trará à luz tópicos tão essenciais como a "natureza íntima" e o "significado decisivo e distintivo" da Sagrada Escritura, isto é, sua qualidade de Palavra de Deus. Sem este pressuposto a leitura do escrito Sagrado se transforma em "curiosidade histórica", "pura historiografia", "história da literatura" ou, se quiser, em "arqueologia".
Simultaneamente, a reflexão sobre o tema da verdade da sagrada Escritura trará um acréscimo para a vida de toda a Igreja, pois se aprofundará a ideia de que o texto sagrado é constituído por palavras inspiradas, onde o próprio Deus faz ouvir a sua voz por meio dos hagiógrafos, profetas, apóstolos e evangelistas.
A hermenêutica da Fé se apoia no valor ontológico da razão.
Analisada a transcendência da problemática, comprova-se que a hermenêutica com a qual a Igreja em todos os tempos abordou a Sagrada Escritura, possui a excelência de uma tradição viva e dinâmica de quase dois mil anos de existência. O pressuposto fundamental é uma decisão enlevada e amorosa à Palavra de Deus, em virtude do Dom inestimável da Fé. Portanto, uma exegese que deseje abordar de modo adequado a Sagrada Escritura " deve reconhecer que a Fé da Igreja é quela forma de 'simpatia' sem a qual o texto não se abre. Deve reconhecer essa Fé como uma hermenêutica, como lugar da compreensão, que não violenta dogmaticamente a Bíblia, mas lhe oferece a única possibilidade de ser ela mesma".
Mas, junto com esta simpatia, qualidade eminente da hermenêutica da Fé, deve-se acrescentar que esta, em sua dimensão mais genuína, não se confunde com uma concepção crédula, cega e sentimental, carente de juízo crítico. Pelo contrário, a hermenêutica da Fé tem como ponto de partida um rationabile obsequium. Quer dizer, o ser humano - em sua qualidade de criatura e fazendo uso das faculdades da razão e da vontade - reconhece com humildade sua contingência e dependência em relação a Deus, adora-O e outorga seu assentimento amoroso às verdades sobrenaturais por Ele reveladas.
Em outras palavras, um católico fiel adere ao Magistério da Igreja, não pela emoção ou pelos sentimentos que as verdades da Religião possam provocar: ele crê apoiado no valor ontológico da razão, faculdade pela qual examina e pondera essas revelações e, com o auxílio da graça, as aceita como dignas de ser cridas. Pari passu, reconhece que "por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana.
As duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à verdade.
Por estes motivos, é oportuno recordar o ensinamento expresso pelo Bem-aventurado João Paulo II, nas palavras iniciais da célebre encíclica Fides et ratio: "A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade". Com elas o Pontífice sintetizou os fundamentos da Doutrina Católica a respeito do autêntico conúbio que deve reger as relações da Fé com o entendimento humano.
De fato, a Fé sem a Razão degenera em fideísmo, que põe as verdades da Religião num plano distinto do racional, sobre a base da mera sensibilidade ou das emoções desprovidas de reflexão. Dita doutrina não faz senão esvaziar a Fé de objetividade. Por sua vez, a capacidade de raciocinar dissociada da Fé, desemboca no racionalismo, o qual atribui "à razão natural aquilo que se pode conhecer apenas pela luz da fé". Por este motivo, amas as correntes foram motivo de censura por parte da Igreja.
Comprova-se assim que a hermenêutica da Fé, com a qual a Igreja lê a Sagrada Escritura, tem seus fundamentos num sólido patrimônio histórico-espiritual referendado ao longo de quase dois mil anos por virtuosos testemunhos de vida, lúcidos ensinamentos e até pelo derramamento do próprio sangue, no martírio: "Realmente, a interpretação mais profunda da escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua". Ou seja, dos santos. Trata-se de uma plêiade de homens e mulheres, canonizados ou não, que junto a ilustres Padres da igreja, sábios Doutores, intrépidos Confessores, valorosos Mártires e inocentes Virgens proclamaram com sua vida e sua palavra este princípio essencial: uma correta hermenêutica da Sagrada Escritura deve estar sempre em concordância com a Fé professada pela Igreja Católica de todos os tempos.
Como afirma o Papa Bento XVI, "a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus."
Declaração ufana da unidade de Jesus.
Assim pensaram, assim creram e assim argumentaram os primeiros teólogos da Igreja, os Padres Apologistas. Neste sentido, deve-se recordar que o nome de Jesus Cristo, com o qual a Igreja nascente começou a denominar o Homem-Deus, corresponde à declaração ufana da unidade de Jesus, o Homem Verdadeiro, e Cristo, o Deus-Verdadeiro.
Desde aqueles dias até hoje, esta verdade foi proclamada por inúmeros filhos da igreja os quais, a exemplo do Divino Mestre, não duvidaram em enfrentar perseguições e isolamentos, chegando até o martírio. Seu testemunho admirável atravessa os séculos e se apresenta ao mundo atual como uma verdadeira hermenêutica vivificante da Fé. A todos eles, sejam dirigidas nossa súplicas para que um dia também nós, depois de termos combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a Fé (cf. 2Tm 4,7), mereçamos pela graça de Deus ser admitidos na Pátria Celeste.
Fonte: Revista: Arautos do Evangelho, (Pe.Leonardo Barraza,EP); n.128.
domingo, 30 de junho de 2013
TRAJETÓRIA RUMO A SEMANA MISSIONÁRIA E JMJ NA ARQUIDIOCESE DE NTERÓI - Pe. André B.Siqueira.
Gostaria de pedir ajuda para divulgar este texto sobre a SM e JMJ. Podemos utilizar o nosso facebook, sites que temos acesso, etc. Obrigado a todos.
Tempo de graça na Arquidiocese de Niterói
“Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (I Cor 2, 9).
Tempo de graça na Arquidiocese de Niterói
“Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (I Cor 2, 9).
Julho de 2013! A data tão aguardada por milhares de jovens, finalmente, chegou. Já estamos bem perto da Semana Missionária e da Jornada Mundial da Juventude. Porém, mesmo antes desses dois grandes eventos, não há dúvidas de que a Arquidiocese de Niterói já vive um tempo especial de graça. Ao contemplarmos a trajetória traçada até aqui, sobram motivos para bendizermos a Deus e nosso coração deve se encher de alegria desde agora.
Nesta mensagem, gostaria de listar alguns dos inúmeros benefícios que venho percebendo ao longo de nossa caminhada:
1- Mais organização no Setor Juventude da Arquidiocese de Niterói e maior integração entre os membros;
2- Maior visibilidade e espaço para os jovens dentro das paróquias;
3- Grandes eventos na Arquidiocese: cinco prés-DNJ nos vicariatos, como forma de preparação para o Dia Nacional da Juventude (DNJ), realizado em São Gonçalo, em outubro de 2012. No início deste ano, tivemos a Missão de Férias, em Arraial do Cabo (janeiro), que integrou jovens de todos os municípios da Arquidiocese em prol da evangelização, e a Convivência de Carnaval, um tempo especial de oração. Em maio, aconteceu o Bote Fé, que deu início à peregrinação dos símbolos da JMJ (Cruz e Ícone de Nossa Senhora) e, em junho, a Solenidade de Corpus Christi, com participação intensa da juventude;
4- Vigília dos Jovens Adoradores, que acontecem, mensalmente, desde maio de 2012. Noites maravilhosas, com a presença de sacerdotes, além de centenas de jovens;
5- Clero presente em todas as atividades do Setor Juventude da Arquidiocese;
6- Maior visibilidade da Igreja em meio à sociedade;
7- Maior autoestima dos jovens;
8- Retorno à Igreja de jovens que estavam afastados da vida eclesial;
Lembrei alguns dos grandes feitos de Deus entre nós, mas convido todos a um exame de consciência particular. Sem muito esforço, será possível ver a ação divina, de forma individual, em nossas vidas, em inúmeros momentos.
Julho chegou e também é tempo de reconhecer a atuação de inúmeras pessoas ao longo de mais de um ano. Muitos têm se dedicado: o Arcebispo de Niterói, Dom José Francisco, o Vigário Geral, os seis vigários episcopais, os oito padres do Setor Juventude e os três sacerdotes do Instituto JMJ, que cuida da jornada e da Semana Missionária na Arquidiocese de Niterói. Não podemos nos esquecer dos muitos leigos (jovens e adultos) que compõem o instituto, o Setor Juventude, as comissões vicariais e paroquiais. Têm papel fundamental na organização dos grandes eventos o Vaticano, a CNBB e o Comitê Organizador Local (COL) da JMJ, de onde vêm todas as diretrizes para o nosso trabalho. Erros e acertos em tudo o que foi feito até aqui incluem essas centenas (ou milhares) de pessoas e é nosso dever rezar por todos.
A graça e a misericórdia divinas estiveram conosco em todo caminho trilhado. Mas não faltaram dificuldades e obstáculos. Tivemos momentos de Calvário, mas o sacrifício e a renúncia geraram (e ainda geram) Vida, mesmo que ainda não a percebamos. É preciso juntar, cada vez mais, nossos esforços para fazermos o melhor. Acredito que unidade e confiança são o mais importante. Em um trabalho coletivo, importa o sacrifício pessoal em prol da meta a ser alcançada, ainda que seja necessário o abandono de si para estar em comunhão com o outro. Somente com unidade podemos construir o mundo novo que desejamos.
Tenho visto clérigos, leigos, adultos e jovens abatidos por causa de alguns imprevistos. Mas não é hora de desânimo, pois ainda há muito por fazer pela Semana Missionária, JMJ e pelo Setor Juventude. Precisamos, todos os dias, renovar nossas forças em Deus e continuar os trabalhos.
Há mais de um ano, venho me dedicando, diariamente, à juventude, à Semana Missionária e à JMJ. Foram poucos os dias que não me deparei com a necessidade de repensar, reorganizar, recomeçar. Tenho me empenhado em implorar a Deus esta força todos os dias. Também tenho suplicado a Ele por todos os envolvidos com a juventude e que vêm se dedicando a este árduo trabalho. Tenho certeza de que se já presenciamos tantas coisas boas, poderemos ainda ver coisas muito maiores.
Lamentamos os erros, mas vibramos com os acertos que nos trouxeram tantos benefícios. A JMJ independente do que venha pela frente já foi e é um sucesso em nossa Arquidiocese!
Fonte: facebook (Pe.Andre B.Siqueira).
terça-feira, 25 de junho de 2013
A BÍBLIA NA CATEQUESE COM ADULTOS
O documento n.26 da CNBB Catequese Renovada diz que a Bíblia é a primeira fonte da catequese. Ela deve inspirar todo o processo catequético e também a catequese com adultos.
Hoje em dia, a Bíblia já está na mão dos adultos através dos círculos bíblicos e outros de reflexão como da Campanha da Fraternidade, da Novena de Natal etc.A Bíblia é inspiração constante nas Comunidades.
Mas, para trabalhar adequadamente com a Bíblia na formação dos adultos, o próprio agente deve se formar para ter uma visão da bíblia que realmente ajude os adultos a alimentar sua vida cristã.
A Bíblia é um livro para adultos.
A Bíblia é um livro escrito por adultos para adultos. Ela trata as pessoas como adultos. Deixa espaço para refletir e para decidir. Não dá receitas prontas, nem coloca grandes dogmas de fé. A Bíblia leva a descobrir a mão de Deus nos acontecimentos, alerta para a vivência da Aliança e deixa espaço para se posicionar diante dela. Na própria Bíblia encontramos correntes diferentes, ideias às vezes opostas, releituras de antigos textos. A Bíblia é diferente de um catecismo que coloca as verdades da fé sem muita possibilidade de discussão ou de opiniões diferentes.
A Bíblia relata a experiência que um povo tem de Deus.
A Bíblia não é a Palavra de Deus que caiu do céu. Ela brotou da própria vida com suas lutas e sofrimentos, com suas situações e acontecimentos. É aí que o Povo da Bíblia foi descobrindo a mão de Deus, seu rosto, seus apelos. A Bíblia foi escrita a partir da experiência de Deus que o Povo fazia na sua história, orientado pelos profetas. para entender bem o texto, devemos ler o mesmo a partir da situação concreta (contexto). O que levou a escrever? A partir disto podemos interpretá-lo para nossa situação.
Em Jesus, a revelação de Deus chegou ao auge. Os primeiros seguidores de Jesus experimentaram nele a presença do próprio Deus. Hoje, a Bíblia vai nos ajudar a descobrir Deus na nossa vida, escutar seus apelos, dar nossa resposta.
A Bíblia é uma Biblioteca
A Bíblia é um conjunto de escritos com gêneros literários diferentes. É necessário conhecer tais estilos literários para não tomar ao pé da letra e cair numa leitura fundamentalista. A Bíblia está cheia de simbolismos e narrativas que ajudam a encontrar o sentido mais profundo dos acontecimentos e da ação de Deus. A Bíblia não é um livro de ciências, nem de história, no atual sentido da palavra. Ela não pretende transmitir dados científicos e históricos. Sua linguagem não é informativa sem consequências para nossa vida, mas propositiva: apela a uma resposta.
Na catequese com adultos damos uma visão geral do livro e da história do povo da Bíblia e da sua mensagem central: a Aliança.
A Bíblia é uma luz para a vida de hoje.
O documento de Puebla (n.997) diz assim: "A catequese deve iluminar com a Palavra de Deus as situações humanas e os acontecimentos da vida, para neles fazer descobrir a presença ou ausência de Deus".
A Bíblia não pode ser lida desligada da vida ou ser lida num sentido espiritualista. O povo da Bíblia chora, louva, grita a Deus. Isto brota da vida que não é só doçura, mas coloca o ser humano diante de duras e incompreensíveis realidades. Às vezes, a Bíblia dá respostas, mas também se cala diante do mistério da vida e do sofrimento.
A Bíblia é o livro da Aliança
Toda a Bíblia é impregnada da mensagem da Aliança que Deus contraiu com seu Povo. É um pacto de amor e fidelidade. É uma mensagem de libertação, de salvação. Mostra o caminho da verdadeira vida e os caminhos tortos e pecaminosos que desviam dela.
A leitura catequética deve sempre levar em conta esta mensagem libertadora da Bíblia. Deus quer salvar em situações bem concretas, como podemos ler no livro do Êxodo, nos livros dos Profetas e na mensagem da Aliança e, no Novo Testamento, no anúncio do reino de Deus. A Bíblia quer ajudar a descobrir o plano salvífico de Deus.
Há certas passagens na Bíblia que, à primeira vista, não são libertadoras. Foram escritas em determinados contextos que devem ser levados em conta. O que valia naquele tempo, naquela cultura, nem sempre valia naquele tempo, naquela cultura, nem sempre pode ser aplicado à nossa situação.
Dentro de uma visão libertadora, devemos dialogar com esses textos e até criticá-los. Alguns exemplos: as guerras santas e o extermínio dos inimigos, a dominação da mulher, o casamento polígamo, as leis de purificação e de alimentação... Se tomarmos tudo literalmente para nós hoje, caímos numa leitura fundamentalista que não liberta, mas escraviza.
Uma verdadeira leitura bíblica ilumina as situações de dominação e injustiça que existem hoje e anuncia a libertação integral de todos.
A Bíblia faz uma leitura a partir dos pobres.
Pode-se fazer a leitura da Bíblia a partir de diversos ângulos. Cada ângulo descobrirá determinadas facetas. Podemos ler a Bíblia como uma interessante leitura de fama mundial ou para defender nossas posições religiosas contra aqueles que pensam diferente. Podemos ler a Bíblia para encontrar consolo e paz. O poderoso encontrará textos a seu favor. nos sintonizar com os profetas e com o próprio Jesus, façamos a leitura da Bíblia a partir do pobre, do marginalizado. Os pobres têm lugar preferencial na Bíblia, são chamados bem-aventurados e benditos.
A Bíblia é o livro da comunidade.
A Bíblia é o livro do Povo de Deus, das primeiras comunidades cristãs, das nossas comunidades hoje. Lida em comunidade, a reflexão se aprofunda e enriquece. A Bíblia quer construir e fazer crescer a comunidade de fé, a comunhão fraterna, a vida de oração (leitura orante da Bíblia). Leva à solidariedade e compromisso. Por isto, é importante a leitura da Bíblia em grupo, onde jesus está no meio para nos iluminar.
Evita-se uma leitura intimista, simplista. A Palavra de Deus é altamente questionadora, visa a conversão do seu povo, denuncia atitudes que vão contra a prática comunitária da fraternidade e igualdade.
A Bíblia deve ser lida na perspectiva do Reino.
A leitura Bíblica não visa somente a formação da comunidade, mas deve inspirar o serviço ao mundo, o qual deve ser transformado em Reino de Deus, Reino de paz e de justiça, de fraternidade e igualdade, onde Deus é tudo em todos. O Reino ultrapassa as fronteiras da Igreja, não depende de estruturas e se completará na eternidade.
Por isso a leitura da Bíblia deve levar a uma conscientização, a um compromisso para uma ação transformadora da sociedade, onde o Reino está para ser construído. Tal leitura acentuará a nossa responsabilidade como colaboradores de Deus no seu plano de salvação que é um plano universal.
Evitemos a visão de um Deus milagreiro que resolve os problemas humanos sem a atuação do ser humano. Saibamos ler a linguagem simbólica da Bíblia que, através de muitas narrativas de milagres, quer fazer entender que Deus não nos deixa sozinhos no processo de libertação. Tomando literalmente as narrações de milagres, corremos o risco de fazer uma leitura alienante que dispensa a atuação humana, deixando a solução dos problemas unicamente à ação milagreira de Deus. É importante saber que Deus efetua e realiza seu plano de salvação com a nossa cooperação e que recebemos um chamado divino para construir o Reino. Nossa atuação é indispensável.
Evitar uma oposição entre Antigo e Novo Testamento.
Não façamos oposição entre o Antigo e o Novo Testamento. É o mesmo Deus que se dá a conhecer: o Deus da Aliança que ama seu Povo e quer libertar. Em Jesus, Deus veio completar a Aliança, mas não a derrubou ou substituiu. O Novo Testamento é uma releitura do Antigo Testamento à luz da morte e ressurreição de Jesus. Jesus está na linha de muitos profetas e os primeiros cristãos entenderam Jesus a partir das Escrituras.
É importante conhecer o Antigo Testamento. Quanto mais o conhecermos, tanto mais entenderemos quem é Jesus, suas ações, seus ensinamentos, seus muitos títulos. A riqueza do Antigo Testamento reflete na pessoa de Jesus com maior fulgor e perfeição.
Tal leitura despertará também maior respeito pelas raízes judaicas do cristianismo. Aumentará o respeito pelo povo judeu, o primeiro chamado por Deus e que continua sendo chamado (cf. Rm 11).
A Bíblia ensina grandes valores
Não reduzamos a Bíblia a exemplos edificantes, acentuando normas, proibições. Mas levemos a viver os grandes valores que a Bíblia nos mostra: serviço, justiça, misericórdia, perdão, fraternidade e tantos outros. A Bíblia resume toda a moral em amar a Deus e ao próximo. Este amor será criativo e descobrirá como colocar isto em prática do melhor modo possível.
A Bíblia não dá receitas prontas para nosso agir hoje. A vida moderna nos coloca diante de questionamentos não tão simples e que não se apresentavam ainda no tempo da bíblia, como: guerras nucleares, corrida armamentista, preservação da natureza, controle da natalidade, aborto, democracia, direitos dos trabalhadores, emancipação da mulher, problemas da bioética e tantos outros.
A Bíblia não fala diretamente sobre isto. Fala sobre problemas morais e éticos do seu tempo, problemas que nem sempre são os nossos, como a observância da Lei de Moisés, as guerras "santas", a idolatria e outros. Por outro lado, problemas como riqueza/pobreza, poder/opressão, culto/vivência estão bem presentes também nos dias de hoje.
A Bíblia quer ser uma inspiração para nós, hoje, para encontrarmos o caminho certo dentro do plano da salvação de Deus. Trata-se mais de uma mentalidade do que de prescrições exatas; é mais uma procura, uma descoberta da vontade de Deus hoje que quer nos tirar da "casa da escravidão" (Ex 20,2).
Jesus Cristo está no Centro
Para os cristãos, Jesus Cristo é o ponto alto da salvação de Deus. Toda a Bíblia encontra seu sentido pleno na pessoa dele. Não devemos cultuar o Livro. Antes do Livro está a pessoa viva de Jesus Cristo, presente na sua comunidade que, pela força do seu Espírito, quer renovar a face da terra e implantar o Reino do pai, desde já, aqui e agora.
O método da Leitura Bíblica.
O método é o conhecido VER (a realidade, as experiências, as dúvidas...); JULGAR à luz da Bíblia; AGIR (mudar de mentalidade e chegar à ação); CELEBRAR a reflexão da vida; AVALIAR de vez em quando.
Um bom exemplo do método de Jesus encontramos em Lc 24,13-35, onde encontramos os momentos de diálogo e situação (v.13-24), julgar à luz das Escrituras (v.25-27), celebrar (v.28-31), agir (v.32-35).
A narração da mulher samaritana segue o mesmo desenvolvimento. Cursos ou cursinhos sistemáticos também têm seu lugar e seu momento, conforme os desejos dos participantes.
Conclusão
Estas reflexões (que não pretendem ser completas) mostram que não se trata de colocar simplesmente a Bíblia na catequese com adultos e fazer a leitura de certos textos. Supõe que o agente saiba usar a Bíblia dentro de uma visão libertadora, dentro do contexto atual da vida, levando a um compromisso em nível pessoal, comunitário e social.
Fontes: Como nossa Igreja lê a Bíblia; A Bíblia na catequese com adultos; Revista Vida pastoral; A Bíblia na catequese; 2ª Sem.Bras.Catequese.
Hoje em dia, a Bíblia já está na mão dos adultos através dos círculos bíblicos e outros de reflexão como da Campanha da Fraternidade, da Novena de Natal etc.A Bíblia é inspiração constante nas Comunidades.
Mas, para trabalhar adequadamente com a Bíblia na formação dos adultos, o próprio agente deve se formar para ter uma visão da bíblia que realmente ajude os adultos a alimentar sua vida cristã.
A Bíblia é um livro para adultos.
A Bíblia é um livro escrito por adultos para adultos. Ela trata as pessoas como adultos. Deixa espaço para refletir e para decidir. Não dá receitas prontas, nem coloca grandes dogmas de fé. A Bíblia leva a descobrir a mão de Deus nos acontecimentos, alerta para a vivência da Aliança e deixa espaço para se posicionar diante dela. Na própria Bíblia encontramos correntes diferentes, ideias às vezes opostas, releituras de antigos textos. A Bíblia é diferente de um catecismo que coloca as verdades da fé sem muita possibilidade de discussão ou de opiniões diferentes.
A Bíblia relata a experiência que um povo tem de Deus.
A Bíblia não é a Palavra de Deus que caiu do céu. Ela brotou da própria vida com suas lutas e sofrimentos, com suas situações e acontecimentos. É aí que o Povo da Bíblia foi descobrindo a mão de Deus, seu rosto, seus apelos. A Bíblia foi escrita a partir da experiência de Deus que o Povo fazia na sua história, orientado pelos profetas. para entender bem o texto, devemos ler o mesmo a partir da situação concreta (contexto). O que levou a escrever? A partir disto podemos interpretá-lo para nossa situação.
Em Jesus, a revelação de Deus chegou ao auge. Os primeiros seguidores de Jesus experimentaram nele a presença do próprio Deus. Hoje, a Bíblia vai nos ajudar a descobrir Deus na nossa vida, escutar seus apelos, dar nossa resposta.
A Bíblia é uma Biblioteca
A Bíblia é um conjunto de escritos com gêneros literários diferentes. É necessário conhecer tais estilos literários para não tomar ao pé da letra e cair numa leitura fundamentalista. A Bíblia está cheia de simbolismos e narrativas que ajudam a encontrar o sentido mais profundo dos acontecimentos e da ação de Deus. A Bíblia não é um livro de ciências, nem de história, no atual sentido da palavra. Ela não pretende transmitir dados científicos e históricos. Sua linguagem não é informativa sem consequências para nossa vida, mas propositiva: apela a uma resposta.
Na catequese com adultos damos uma visão geral do livro e da história do povo da Bíblia e da sua mensagem central: a Aliança.
A Bíblia é uma luz para a vida de hoje.
O documento de Puebla (n.997) diz assim: "A catequese deve iluminar com a Palavra de Deus as situações humanas e os acontecimentos da vida, para neles fazer descobrir a presença ou ausência de Deus".
A Bíblia não pode ser lida desligada da vida ou ser lida num sentido espiritualista. O povo da Bíblia chora, louva, grita a Deus. Isto brota da vida que não é só doçura, mas coloca o ser humano diante de duras e incompreensíveis realidades. Às vezes, a Bíblia dá respostas, mas também se cala diante do mistério da vida e do sofrimento.
A Bíblia é o livro da Aliança
Toda a Bíblia é impregnada da mensagem da Aliança que Deus contraiu com seu Povo. É um pacto de amor e fidelidade. É uma mensagem de libertação, de salvação. Mostra o caminho da verdadeira vida e os caminhos tortos e pecaminosos que desviam dela.
A leitura catequética deve sempre levar em conta esta mensagem libertadora da Bíblia. Deus quer salvar em situações bem concretas, como podemos ler no livro do Êxodo, nos livros dos Profetas e na mensagem da Aliança e, no Novo Testamento, no anúncio do reino de Deus. A Bíblia quer ajudar a descobrir o plano salvífico de Deus.
Há certas passagens na Bíblia que, à primeira vista, não são libertadoras. Foram escritas em determinados contextos que devem ser levados em conta. O que valia naquele tempo, naquela cultura, nem sempre valia naquele tempo, naquela cultura, nem sempre pode ser aplicado à nossa situação.
Dentro de uma visão libertadora, devemos dialogar com esses textos e até criticá-los. Alguns exemplos: as guerras santas e o extermínio dos inimigos, a dominação da mulher, o casamento polígamo, as leis de purificação e de alimentação... Se tomarmos tudo literalmente para nós hoje, caímos numa leitura fundamentalista que não liberta, mas escraviza.
Uma verdadeira leitura bíblica ilumina as situações de dominação e injustiça que existem hoje e anuncia a libertação integral de todos.
A Bíblia faz uma leitura a partir dos pobres.
Pode-se fazer a leitura da Bíblia a partir de diversos ângulos. Cada ângulo descobrirá determinadas facetas. Podemos ler a Bíblia como uma interessante leitura de fama mundial ou para defender nossas posições religiosas contra aqueles que pensam diferente. Podemos ler a Bíblia para encontrar consolo e paz. O poderoso encontrará textos a seu favor. nos sintonizar com os profetas e com o próprio Jesus, façamos a leitura da Bíblia a partir do pobre, do marginalizado. Os pobres têm lugar preferencial na Bíblia, são chamados bem-aventurados e benditos.
A Bíblia é o livro da comunidade.
A Bíblia é o livro do Povo de Deus, das primeiras comunidades cristãs, das nossas comunidades hoje. Lida em comunidade, a reflexão se aprofunda e enriquece. A Bíblia quer construir e fazer crescer a comunidade de fé, a comunhão fraterna, a vida de oração (leitura orante da Bíblia). Leva à solidariedade e compromisso. Por isto, é importante a leitura da Bíblia em grupo, onde jesus está no meio para nos iluminar.
Evita-se uma leitura intimista, simplista. A Palavra de Deus é altamente questionadora, visa a conversão do seu povo, denuncia atitudes que vão contra a prática comunitária da fraternidade e igualdade.
A Bíblia deve ser lida na perspectiva do Reino.
A leitura Bíblica não visa somente a formação da comunidade, mas deve inspirar o serviço ao mundo, o qual deve ser transformado em Reino de Deus, Reino de paz e de justiça, de fraternidade e igualdade, onde Deus é tudo em todos. O Reino ultrapassa as fronteiras da Igreja, não depende de estruturas e se completará na eternidade.
Por isso a leitura da Bíblia deve levar a uma conscientização, a um compromisso para uma ação transformadora da sociedade, onde o Reino está para ser construído. Tal leitura acentuará a nossa responsabilidade como colaboradores de Deus no seu plano de salvação que é um plano universal.
Evitemos a visão de um Deus milagreiro que resolve os problemas humanos sem a atuação do ser humano. Saibamos ler a linguagem simbólica da Bíblia que, através de muitas narrativas de milagres, quer fazer entender que Deus não nos deixa sozinhos no processo de libertação. Tomando literalmente as narrações de milagres, corremos o risco de fazer uma leitura alienante que dispensa a atuação humana, deixando a solução dos problemas unicamente à ação milagreira de Deus. É importante saber que Deus efetua e realiza seu plano de salvação com a nossa cooperação e que recebemos um chamado divino para construir o Reino. Nossa atuação é indispensável.
Evitar uma oposição entre Antigo e Novo Testamento.
Não façamos oposição entre o Antigo e o Novo Testamento. É o mesmo Deus que se dá a conhecer: o Deus da Aliança que ama seu Povo e quer libertar. Em Jesus, Deus veio completar a Aliança, mas não a derrubou ou substituiu. O Novo Testamento é uma releitura do Antigo Testamento à luz da morte e ressurreição de Jesus. Jesus está na linha de muitos profetas e os primeiros cristãos entenderam Jesus a partir das Escrituras.
É importante conhecer o Antigo Testamento. Quanto mais o conhecermos, tanto mais entenderemos quem é Jesus, suas ações, seus ensinamentos, seus muitos títulos. A riqueza do Antigo Testamento reflete na pessoa de Jesus com maior fulgor e perfeição.
Tal leitura despertará também maior respeito pelas raízes judaicas do cristianismo. Aumentará o respeito pelo povo judeu, o primeiro chamado por Deus e que continua sendo chamado (cf. Rm 11).
A Bíblia ensina grandes valores
Não reduzamos a Bíblia a exemplos edificantes, acentuando normas, proibições. Mas levemos a viver os grandes valores que a Bíblia nos mostra: serviço, justiça, misericórdia, perdão, fraternidade e tantos outros. A Bíblia resume toda a moral em amar a Deus e ao próximo. Este amor será criativo e descobrirá como colocar isto em prática do melhor modo possível.
A Bíblia não dá receitas prontas para nosso agir hoje. A vida moderna nos coloca diante de questionamentos não tão simples e que não se apresentavam ainda no tempo da bíblia, como: guerras nucleares, corrida armamentista, preservação da natureza, controle da natalidade, aborto, democracia, direitos dos trabalhadores, emancipação da mulher, problemas da bioética e tantos outros.
A Bíblia não fala diretamente sobre isto. Fala sobre problemas morais e éticos do seu tempo, problemas que nem sempre são os nossos, como a observância da Lei de Moisés, as guerras "santas", a idolatria e outros. Por outro lado, problemas como riqueza/pobreza, poder/opressão, culto/vivência estão bem presentes também nos dias de hoje.
A Bíblia quer ser uma inspiração para nós, hoje, para encontrarmos o caminho certo dentro do plano da salvação de Deus. Trata-se mais de uma mentalidade do que de prescrições exatas; é mais uma procura, uma descoberta da vontade de Deus hoje que quer nos tirar da "casa da escravidão" (Ex 20,2).
Jesus Cristo está no Centro
Para os cristãos, Jesus Cristo é o ponto alto da salvação de Deus. Toda a Bíblia encontra seu sentido pleno na pessoa dele. Não devemos cultuar o Livro. Antes do Livro está a pessoa viva de Jesus Cristo, presente na sua comunidade que, pela força do seu Espírito, quer renovar a face da terra e implantar o Reino do pai, desde já, aqui e agora.
O método da Leitura Bíblica.
O método é o conhecido VER (a realidade, as experiências, as dúvidas...); JULGAR à luz da Bíblia; AGIR (mudar de mentalidade e chegar à ação); CELEBRAR a reflexão da vida; AVALIAR de vez em quando.
Um bom exemplo do método de Jesus encontramos em Lc 24,13-35, onde encontramos os momentos de diálogo e situação (v.13-24), julgar à luz das Escrituras (v.25-27), celebrar (v.28-31), agir (v.32-35).
A narração da mulher samaritana segue o mesmo desenvolvimento. Cursos ou cursinhos sistemáticos também têm seu lugar e seu momento, conforme os desejos dos participantes.
Conclusão
Estas reflexões (que não pretendem ser completas) mostram que não se trata de colocar simplesmente a Bíblia na catequese com adultos e fazer a leitura de certos textos. Supõe que o agente saiba usar a Bíblia dentro de uma visão libertadora, dentro do contexto atual da vida, levando a um compromisso em nível pessoal, comunitário e social.
Fontes: Como nossa Igreja lê a Bíblia; A Bíblia na catequese com adultos; Revista Vida pastoral; A Bíblia na catequese; 2ª Sem.Bras.Catequese.
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